Mãe e Égua

Era inquietante o quão deserta esta região da península estava. A terra rejeitava ser paisagem coberta por quintas maltratadas ou aldeias abandonadas. O génio do local era temperamental, não tolerando a presença humana por mais de alguns meses.

Estava em território de nómadas.

Tabula Rasa não era estranho ao perigo que estas gentes representavam. Vezes e vezes Roma e Samnitas confrontaram-se, o sucesso de um estilo de vida predicado sobre a miséria do outro. Plebeus e patrícios aceitavam de bom grado a conveniente mentira que três gerações de paz tinham mudado as atitudes das gentes do gado e sela em relação aos seus “amigos” agricultores. Aos aliados da vizinhança que ouviam o cavalgar e gritos à noite, não era possível esquecer a única verdade absoluta sobre os Samnitas. Aqueles que rebanham, guerreiam.

A máquina de guerra latina não iria proteger Sextus. Se os Samnitas o apanhassem, a sua mensagem não iria ser ouvida. O seu corpo seria retalhado e violado, morto em troca de duzentas e noventa e nove peças de prata.

O Submundo era omnipresente, tocando o mundo mortal até no mais remoto dos locais. Sentindo o seu chamamento, achou um túmulo escondido por elmos, uma pequena casa feita com tijolos, preciosos quadrados cortados da pedra vulcânica. Perfeito local para passar à noite.

Silêncio não era parte do imperativo noturno, algo causando grande ansiedade nos animais. Sextus mal pregou olho, questionando-se se não era melhor descer ao Submundo e pernoitar na sua peculiar insegurança. Acordou na manhã seguinte com olhos papudos e uma cabeça latejante, cambaleando sem destino certo, desajeitadamente procurando pela causa do alvoroço.

Marcas de cascos de cavalos. Tamanhos diferentes, deixados por bestas sem ser a sua. Mais inquietantes eram as mais leves, deixadas por uma animal sem as típicas sandálias equestres. Acariciando a erva em redor, apanhou algo brilhante e carmesim. Vários arilos de romãs.

Assobiou pela sua montada, juntos trotaram para longe daquela noite.

 

*

 

Outro dia de viagem seguiu-se, nenhuma alma cruzando o seu caminho, quer ele se aventurasse nos trilhos ou fora destes. Ao menos sinais de acampamento não falharam em aparecer, pedras tocadas por chamas, erva espezinhada e ossos de animais queimados.

Montando acampamento, Tabula Rasa ofereceu-se permissão para acreditar que nada para além do normal se passava. As fogueiras do horizonte? Mais acampamentos como este.

Nada mais.

Sextus não estava seguro sobre o que é que o tinha acordado, se a onda de calor ou o trovão sem chuva. Assumindo a vigia, examinou a vizinhança. Num morro não muito distante uma égua apareceu, tão subitamente que parecia brotar da terra. Esta não era mortal besta, pois a sua cabeça estava impressionantemente ausente e cravada no seu pescoço estava uma incandescente barra de ferro.

 

*

 

Este seria o dia em que ele iria morrer.

Custava a Sextus acreditar, a sua tão calma manhã tendo tão depressa mudando de tom. Não tendo detetado nenhum trilho, tinha arriscado atravessar um ameno bosque com o intuito de reabastecer provisões. Um par de coelhos, um saco de cogumelos e o cantil cheio mais tarde, avistou os falcões.

Treinados.

Isto era uma armadilha.

Por um momento Tabula Rasa pensou em voltar para trás ou ficar onde estava, mas os olhos nos céus iriam manter os Samnitas a par dos eventos e quanto mais tempo lhes desse, mais tempo eles tinham para se preparar. A sua maior preocupação não incluía a sua morte, pois esta já tinha há muito sido oferecida e não lhe pertencia. Encontrou um tronco oco onde escondeu o dinheiro e escavou com a faca um corvo e um touro, esperando que Lídia encontrasse alguém mais sensato para continuar a sua missão. Atravessando para fora do arvoredo, o seu pensamento estava focado em quanta violência devia oferecer em resistência.

A lança continuava enfaixada.

Um massacre esperava por ele.

Numa plataforma de madeira estava um altar, presidido pela grande mãe Kerres e sete dos seus filhos, incarnados em belas efígies de madeira. Cavalos com selas feitas de lã e cabedal ao estilo dos Bruttii denunciavam a afiliação dos nómadas pastores. Vingança, banditismo ou sacrifício, qualquer que fosse o destino planeado para ele, seria um mistério por resolver.

Nenhum dos cavaleiros estava em estado de responder.

Uma enorme figura em armadura negra estava postada sobre os cadáveres, membros entrelaçados com relâmpagos e fúria. Levantou-se e voltou-se lentamente, a sua mão direita descrevendo um círculo sobre o seu elmo deformado, escondendo-se por detrás de uma ímpia imitação em sangue da face de um general triunfante. As gotas de sangue que escorriam das suas mãos e dos corpos pareciam dançar e saltar de modo aberrante, quase formando palavras, os leves esboços de Rex, Rex, Rex. Repetido até a palavra perder todo o sentido, apenas algo que puxava a realidade para o seu Triunfo.

Rex.

Sextus apertou as mãos no cabo da lança, desmontando e mantendo a distância, lentamente descrevendo um círculo. O próprio ar parecia brilha com atraente distorção, fazendo-o duvidar da sua demanda. Porque havia ele de rejeitar o seu treino militar, querer ser mais que um mero soldado? Se Lídia não tinha lugar para ele como ele era, outros teriam. Existe mérito em serviço, serviço por si só é a melhor recompensa.

A figura estendeu a mão, palma virada para baixo. Sextus sentiu os seus joelhos a fraquejar. A presença opressiva e a natureza alienígena destruíram um dos seus preconceitos. Só porque alguém era tocado pelo Celestial, isso não significa que os conceitos platónicos que tocavam fossem necessariamente bons ou que estes fossem criaturas de virtude. Enterrando a lança no chão e limpando o suor que lhe escorria pela testa, Tabula Rasa resignou-se. Não havia alternativa, tinha que chamar os poderes Infernais.

Conseguia ouvir o seu próprio sangue a correr entre as suas veias, a orgia química de novas células que se dividiam na ânsia de substituir tecido morto, todo o cântico caótico de estar vivo e a invisível, mas poderosa centelha divina que permeava todo o seu ser. Algo se juntou, algo primal e telúrico, estranho e ao mesmo tempo familiar, acordando algo dentro de si.

Um relinchar interrompeu Sextus e o seu momento de descoberta. A égua da noite anterior irrompeu em cena, o saco de moedas na sua boca. Largou esta preciosa carga aos pés de Tabula Rasa, fitando-o de um modo que não deixava ambiguidade. Enquanto Sextus se retirava, a égua carregou sobre Quintius Fulminator, ferro incandescente almejando o seu peito. Agarrando as peças de prata com as duas mãos, Sextus preparou para se perder no bosque.

Não se atreveu a olhar para trás.

A prata para Kerres não foi devolvida.