Prova de Fogo

A Princesa de Terceira Classe despertou tossindo, rodeada por vapor molhado e fumo tóxico. Em seu redor a nave caía aos bocados; cobrindo a boca e olhando para o monitor mais próximo depressa aceitou o inevitável.
A nave tinha aguentado mais de oitenta anos de viagem, mais vinte do que eles esperavam que ela durasse. Como transporte estava acabada, mas mais maravilhosa pira ninguém podia pedir. A Princesa apressou o passo, sabendo que morrer como Segunda Classe exigiria que ela tivesse um papel ativo no seu próprio término.
Abriu um painel lateral, onde, contra protestos do seu companheiro tinha escondido várias armas, assim como sensores internos adicionais que só respondiam a ela.Os únicos sinais vitais ativos eram os dela e os débeis movimentos de outro ser. Confiante que a abordagem não era o mais imediato dos riscos, correu na direção da proa. A maioria dos sistemas que encontrou estavam destruídos para além da possibilidade de reparação, o culpado repousando no meio do caos, o projétil de um lança-fogo da Hegemonia.
A Princesa aproximou-se, suando em bica. Um destes rebentando dentro do casco seria o suficiente para pulverizar toda a nave. Um cabo mexeu-se, fazendo-a voltar-se e apontar uma arma na direção do movimento. A figura de um homem delgado e de longos e pálidos dedos emergiu das trevas, apertando os olhos em desaprovação, acabando por olhar de soslaio para o engenho de destruição.
- Não te preocupes com isso – Escravos-Cientistas não têm escalões ou classes, e mesmo que tivessem, a Princesa duvida que houvesse uma categoria capaz de abranger o único génio de Prodótis. - Desarmei-a. O estrago está feito, mas ao menos não vamos ser tomados pelo fogo.
- Ainda há tempo para isso mudar. Como é que a Hegemonia nos conseguiu encontrar? Tantos anos em viagem, pelas rotas mais longas e sistemas desconhecidos para não sermos intercetados – a Princesa ergueu a cabeça, altiva perante o Fado. - Tudo para acabar no gélido vazio do qual partimos. Que não seja dito que Iphigenia partiu o real encolhida num canto.
- Botes-sonda – o Escravo-Cientista não pareceu partilhar do fatalismo da Princesa ou operava a outro nível de problema, decidindo ignorar essas palavras da mulher. Ela reparou nos seus olhos cansados e membros enfraquecidos; ele não tinha acordado com o conflito, ele já há muito que deambulava pela nave fazendo reparações. O mistério da integridade do veículo já não era mistério nenhum.- Eles patrulham entre os sistemas de mundos cativos, almejando os mais fracos sinais vitais que detetem, tudo para prevenir fugas. Sistemas traiçoeiros, mas nada que se compare às grandes naves que nos perseguiam.
- Ao menos posso despedir-me de ti - A Princesa abraçou a sua forma mirrada. - Meu querido cúmplice, quem continuará a nossa rebelião?
- Tu – algo rangeu por detrás de Iphigenia, esta sentindo uma dolorosa pontada na base na nuca antes de se poder virar. Os seus olhos reviraram, Prodótis colocando um trapo na boca da mulher para evitar que esta mordesse a língua. - Eu esperava não ter de seguir com este plano, infelizmente não nos resta outra hipótese. Relaxe, Princesa, tente recordar-se de tudo o que é, pois tudo o que é vai ser enviado.
As luzes começaram a falhar, Iphigenia quase perdendo a consciência. O Escravo-Cientista tinha mapeado o seu ego, tudo para a enviar através das estrelas e continuar a sua missão.
- E tu?
Ele desviou os seus cansados olhos, medindo o quanto podia tolerar em mentiras.
- Não existe tempo ou energia para enviar outra cópia completa. Eu tenho umas cópias antigas, desatualizadas, mas fiéis. Cortar um pouco em personalidade, forcar-me no conhecimento que vamos precisar e reconstruir algo que passe por inteligência.
- Horrível homem até ao fim – Iphigenia tossiu, agarrando a mão de Prodótis.- Proíbo-te de me mandares. Se tem que ir um, tens que ser tu. És aquele que pode criar todas as belas maravilhas que oferecem um vislumbre de um universo para além de necessidade e dos males que esta cria.
- Crueldade ainda reina no mundo para onde vais, Iphigenia. Eu não sobreviveria sozinho nessa selvajaria. Tens que ser tu, não vale a pena sequer discutir a alternativa – O Escravo-Engenheiro beijou-a com mais desespero que paixão. - Por mais quebrado que eu esteja, encontra-me. Custe o que custar, promete-me que não vais desistir de me procurar. Já perdemos demasiado tempo, não quero passar outra vida sem ti.
Ela abriu a boca, tentando formar as palavras certas. Os seus olhos fecharam-se pela última vez, promessas por dizer.

*

Orcus sentiu o Sol a queimar-lhe a face, erguendo a mão para encobrir os seus largos olhos. Apalpou às cegas pelo seu chapéu, falhando em encontrá-lo. Aborrecido e sem paciência, obrigou-se a abrir os olhos, deixando apenas o mínimo de luz atravessar entre os seus dedos.
Teve o vislumbre de algo igualmente dourado.
Lídia estava sentado em cima dele, os seus cabelos longos soltos, capuz para baixo enquanto ela testava o seu chapéu campestre.
- Fica-me tão bem como a ti? - perguntou, ajeitando-o mais um bocado. - Demasiado grande para a minha cabeça oca.
Não podia ser real. Devia ser outro ardil do malfadado grego. O seu coração traiu-o, por um momento fazendo-o partilhar uma memória de uma criança loira, escalavrada e ranhosa, também agarrando o seu chapéu.
Atreveu-se a acreditar que até gigantes imortais podiam ver os seus sonhos concretizados. Afastou-a e levantou-se, olhando em volta para as suas ovelhas, pastando ou repousando à sombra do parco arvoredo das colinas roliças da Etrúria. Não estava a imaginar coisas, aquela mulher estava mesmo ali. Lídia abraçou-o, apertando a sua considerável largura, chorando sem nada da dignidade esperada de uma mulher adulta. Pura emoção que rejeitava imposições.
- Desculpa, desculpa, desculpa! Tudo o que aconteceu foi culpa minha, Orcus – Lídia recuou-se a largá-lo. - Se eu tivesse estado aqui, os outros estariam vivos. Eu teria conseguido protegê-los.
Orcus não projetou nada em relação a isso. Ele tinha escapado ao que quer que tivesse destruído o velho grupo cortando os débeis laços que tinha com eles. Guerras e partidas tinham mudado o tom dos Corvii para algo que ele não podia mais chamar família.
Finalmente Lídia largou-o.
- Os meus atos desde que retornei deixam muito a desejar. Eu ainda não tomei as rédeas que as minhas responsabilidades exigem. Tanta convicção que eu iria restaurar o Ninho, a Roma oferecer Novos Corvus.
O gigante estava feliz por ter Lídia de novo, mas não tinha paciência nenhuma para gente com pouca confiança e falta de convicção, preferindo voltar a sua atenção para o gado. Num gesto de gentil carinho, enviou a Lídia uma imagem dela mesma, gloriosamente à frente de uma pequena legião de. Triunfantes.
- Um exército? - Lídia levou a mão a boca, rindo-se. - Eu ficaria contente com cinco.
O humor depressa desapareceu quando a mulher finalmente reparou nas queimaduras no braço de Orcus. Sem esperar por permissão, agarrou o membro e aproximou a sua face deste, olhos esbugalhados e boquiaberta.
- Impossível, como é que alguém te conseguiu ferir? - Aeneid encostou as narinas da pele cinzenta de Orcus e inspirou. - Não te tens banhado no Styx, não que faça grande diferença no teu caso. E a ferida é fresca e tudo. Quem poderia fazer isto? Os Bodes nunca tiveram grandes elementaristas, os Fénix tinham aquela Dido Felix ou lá o que ela se chamava, mas ela morreu antes do fim da Guerra Púnica. Nenhuma fação deste canto do mundo deveria ter alguém tão poderoso.
Orcus puxou o braço contra o seu peito, massajando-o gentilmente. Para acalmar as especulações de Lídia, apresentou-lhe uma recoleção dos eventos que se passaram, uma jovem passando entre portais e corredores de catacumbas etruscas. Ela não parecia estar lá por vontade própria, temendo cada sombra, a sua face aterrorizada; algo saltou em frente desta, levando-a a conjurar um pilar de chamas.
- Aquela roupa não deixa muito a enganar. É uma Vestalis – Lídia cruzou os braços, descrevendo círculos em redor de Orcus. - Existem pelo menos quatro templos de Vesta cujas comunidades ainda mantêm a velha ordem de sacerdotisas. Pode não ser muito, mas limita a busca a menos de trinta pessoas, já é qualquer coisa.
Fitou Orcus, as suas sobrancelhas arqueando de modo pronunciado.
- Se sabes alguma coisa, tens que me dizer, Orcus. As pessoas erradas não podem chegar a ela antes que eu. Roma precisa dela. Eu preciso dela.
Nada.
Lídia mudou de alvo.
- Quem é Quirinus, Orcus.
Uma ovelha baliu.
- Quem é Quirinus, Orcus.
Orcus olhou para Aeneid de alto a baixo. Colocou uma das suas enormes mãos no ombro da altiva mulher.
- Ele não é um de nós, pois não? Eu estou preparada para fazer o que for preciso, mas não vou conseguir levantar a mão contra um de nós.
Ao invés de responder, Orcus pegou em Lídia como se ela ainda fosse uma criança, abraçando-a e dando passadas largas. Enquanto a sua barba viva acariciava a face da mulher, mostrou-lhe uma imagem do Ninho. Não da ruína, do verdadeiro Ninho.
- Está bem, chega de conversa. Vamos para casa.