Luar do Soldado

O cair da noite não ofereceu sossego ao cavaleiro.

A sua montada queixou-se, protestos que foram ignorados. Sentiu olhos focados nas suas costas, um sentimento de paranoia que nem várias voltas em círculos e a evitar os caminhos batidos conseguia matar. Faz muito que ele tinha abandonado as estradas e trilhos, escolhendo seguir por entre outeiros e arvoredo. Poucos animais se atreviam a deambular à luz das estrelas, a sua única companhia os seus pensamentos e o ocasional vislumbre de uma figura escarlate; talvez até essa última manifestação fosse apenas um produto da sua pesada consciência.

Medo nascia de ameaças para além da sua visão. Os cascos da sua besta embatendo contra a terra dura não eram os únicos que interrompiam o silêncio noturno. Ela estava sempre um passo atrás dele, respirando na sua nuca, lembrando-lhe da juventude mal passada e votos precipitados. Ele tinha tocado na alma de alguém e enviado as suas sombras para o Submundo, a sua essência espalhada no seu último fôlego. Ela iria apanhar-lhe o rasto, e, tão certo como a neve derrete, lançar nova perseguição.

Provas? Nenhumas. Tudo o que tinha era o aperto gélido contra o seu peito, rasgando caminho até ao seu coração.

O cavalo não partilhava ou seria capaz de compreender a apreensão que dominava a mente do seu cavaleiro, o animal apenas conhecia que não podia seguir em frente. O escravo foi obrigado a vergar ao cavalo, acampando para passar a noite. Velhos hábitos aprendidos em tenra idade custavam a morrer, o homem mal reparando que tinha montado um perímetro defensivo e apanhado madeira para uma fogueira. Olhando de soslaio para os ramos e galhos, hesitou em apresentá-los a uma fagulha, cedendo à caução e sofrendo o frio.

Tremendo no seu manto sujo e incapaz de manter os olhos fechados, o cavaleiro recuou na sua decisão e aceitou a companhia do fogo confortante. Assim que as chamas se ergueram, ele encontrou uma mancha escarlate ao seu lado, face escondida debaixo de um capuz baixado. O escravo largou o seu manto e ergueu-se, abandonando o pouco calor que tinha arranjado em troca de uma confrontação glacial.

A recém-chegada figura aproximou-se, o pouco que era visível da sua face feminina congelado em desapontamento. Aproximando-se do cavaleiro com a cuidada e energética postura de uma atleta, ela desferiu um murro verbal que quase acabou o encontro na primeira ronda.

- Eu não mantenho ilusões sobre o homem que comprei, Tabula Rasa – O seu tom tão calmo, inquietante no pouco carinho que ela colocava por detrás de cada palavra, tão afetuosas como uma laje de granito sobre um túmulo. O escravo nunca tinha visto Lídia falar sem brotar otimismo e confiança absoluta. - Se eu escolhi um soldado, a única pessoa a que posso culpar por este agir como um soldado sou eu mesmo. Foi idiótico da minha parte manter expetativas diferentes sobre ti.

- Malícia não guiou a minha mão.

- E, no entanto, não viste necessidade de poupar o golpe letal, Sextus.

- Eles estavam no meu caminho e comprometiam a minha missão - Sextus, o homem que foi cavaleiro e escravo, declarou sem muita sinceridade. Ele tinha passado todo o dia a repetir as mesmas palavras, convencendo-se a si mesmo da necessidade de tamanha finalidade.

- Parece que não interpretaste devidamente o propósito da missão confiada em ti por mim em honra do Estado. Eu espero que reflitas mais sobre o assunto – ela pareceu relaxar um pouco, aliviada. - Ao menos não convocaste o teu Triunfo.

- Eu pensei que estava sobre ordens de não o fazer – Sextus ergueu uma sobrancelha, curioso.

- Eu recomendei avaliação cuidadosa; a decisão de chamar como e quando recai apenas sobre os teus ombros. Tens que respeitar o teu poder, e se escolheres em usá-lo fracamente e movido pelas razões erradas, insultas a sua dimensão e convidas perigo a entrar no mundo. O que eu te digo é irrelevante, a tua escolha é tudo o que importa.

- Você continua a mencionar perigos, mas eu ainda não compreendi exatamente o que quer dizer – o cavaleiro inquiriu, um pouco irritado com a ofuscação. - Perdoe-me, Lídia, você continua a indicar-me que isto não é um processo completamente seguro, mas evita dar-me mais detalhes.

Ela finalmente sorriu, embaraço em lugar de confiança.

- Eu não estou intencionalmente a esconder-te coisas é que como uma Triunfante Celestial, Sextus, eu não acredito ser familiar o suficiente com a natureza telúrica de um Infernal para te dar informação útil. Tudo o que tenho são assunções baseadas na observação de terceiros e possíveis contrastes entre as nossas fontes de poderes. Se tivesse que dar um palpite, eu diria que a tua gente obtém o seu poder da crude realidade da experiência humana, enquanto eu estou em sintonia com formas platónicas, puros conceitos e abstrações divorciadas da mortalidade.

- Como assim? Os instintos básicos que conduzem a violência e avareza? É o Triunfo algo inerentemente vil, que inevitavelmente manchará a nossa fagulha divina? - O escravo estava bastante desconfortável face às implicações levantadas pela declaração de Lídia.

- Em casos extremos, quando mergulhas fundo em mitos primordiais e fundamentais. Eu não vou mentir-te, pois ilusões apenas vão causar mais danos a longo prazo. A tua própria identidade está em risco de cada vez que convocas Triunfo, independentemente da sua origem ou tom, é demasiado imponente e determinado em reescrever o Eu. Eu diria que no caso dos Infernii, eles estão mais expostos a certos aspetos das suas falhas mais humanas, arriscando a perder-se dentro de si mesmos e lentamente tornando-se em caricaturas exageradas das pessoas que eles eram – Lídia apresentou essa hipótese. - Ainda és inexperiente, nem sequer sabes o que precisas de aprender. Assim que o souberes, posso apresentar-te a um amigo meu; este esqueceu-se mais sobre o Triunfo do que alguém alguma vez soube. Por agora, precisas de caminhar cego pela noite.

O cavaleiro sentou-se à frente do fogo.

- Deu-me muito que pensar, Aeneid – uma pausa e um sorriso satisfatório. - Obrigado.

Um relincho aterrador à distância.

- É isto aquilo que eu penso que é?

Sextus limitou-se a acenar.

- Eu vou tratar dela, descansa o quanto possas. Vou precisar de ti em breve, por isso descobre a pessoa que queres ser. Não te deixes ser derrotado pelo primeiro obstáculo que encontres dentro de ti, Tabula Rasa – assim o falou a mancha escarlate antes de desaparecer.

Com a madrugada, clareza. Sextus rasgou o seu manto e agarrou a sua lança, ponta apontada contra si. Com cuidadosa dedicação ele enfaixou as lâminas, cegando-a. O primeiro passo da sua declaração, o pato da sua determinação em guiar todas as suas ações com os melhores e mais humanos dos seus aspetos.

A determinação em tornar-se mais do que uma tábua em branco.

De ser Virtude.