Madrugada

As trevas relutantemente retornavam luz às encostas de Roma, a primeira conquista do dia. Clientes às portas dos patronos, famílias aglomeradas em redor das suas lojas e oficinas, tornando a cidade mais acolhedora aos mais afortunados. Dois palmos a mais do que o resto da multidão, Lídia navegava com calma determinação, cabeça humildemente baixa e um sorriso, deixando-se embalar pela rotina e pela simplicidade dos seus deveres matinais: encher o enorme vaso de bronze que carregava debaixo do braço, não mais pesado que a sua consciência.

O seu sorriso tornou-se ainda mais largo quando se encontrou à sombra da magnifica estrutura de pedra cujos massivos arcos erguidos invadiam Roma. Legado dos espólios conquistados às ambições Pírricas, transformando o sonho de destruição no elixir da vida.

Por meio do engenho humano o vale do Anio era persuadido a abdicar da sua preciosa água, entoando ao longo do percurso hinos gorgolejantes à liberdade e harmonia.

Lídia permitiu a sua mente deambular, resignando-se a esperar; dúzias de mulheres, crianças e escravos esperavam por uma oportunidade de se aproximarem da fonte. Era árduo e ingrato trabalho, contudo, essencial para a industria e sobrevivência de Roma.

Abraçada ao vaso, Lídia esperou pacientemente, apreciando os preguiçosos raios de Apollo Sol que lhe acariciavam a face. Uma sombra caiu sobre ela e interrompeu o seu momento de casual ócio, os seus olhos reconhecendo algo que a fez substituir contemplação por horror. O clamor metálico de bronze contra as pedras da calçada comunicou o fim da hora de placidez, espalhando murmúrios e dedos apontados enquanto todas as atenções se voltavam para o topo de Aqua Anio.

Uma jovem mulher, de braços cobertos de feridas e olhar vítreo trepava o aqueduto; os seus membros vergavam e tremiam devido ao esforço, apenas encontrando alento no seu desespero. Tendo chegado ao topo do mundo, voltou-se e olhou para a cidade que lentamente acordava colina a colina, uma cidade que não tinha lugar para ela.

Descalçou as sandálias e aproximou-se da beira, onde pedra e água cediam ao domínio do ar. Atrás dela, apenas trágico oblívio.

À sua frente, a única brecha de liberdade.

Ao seu lado uma mancha escarlate.

- Eu juro às Manes, eu atiro-me se se aproximar mais um passo! - ela gritou, ameaçando a forma que abrandou para revelar uma alta mulher encoberta por um manto vermelho. - Eu estou a falar a sério! Eu sei o que eu preciso mais do que a vida!

O vento dançou sobre a água apressada do aqueduto, marcando com remoinhos o silêncio entre as duas mulheres.

- Eu entendo – Aeneid declamou após calma observação. - Faz sentido que queiras acabar com a tua vida. A tua vida é uma merda.

A suicida estacou, boquiaberta. Lídia encolheu os ombros e cruzou os braços.

- Estou errada? É apatia que te traz aqui, é num desesperado motivo que procura uma solução de tamanha finalidade?

- N-não – a jovem proferiu, não sem antes oferecer um momento de hesitação, a leve sugestão de incredulidade nas suas próprias palavras. - É verdade, a minha vida é horrível. Por isso é que estou no meu direito de acabar com esta nos meus termos.

- Quem sabe, pode ser que desta vez funcione.

- Como é que…

- Fui eu que a salvei das outras três vezes – Aeneid estendeu a mão, palma aberta voltada para o céu. - Apesar da minha aparência, eu consigo ser discreta quando quero. A maioria das pessoas não precisa mais do que algumas noites de reflexão após um raspão com Dis Pater para encontrar outras soluções; tantos precisaram apenas de um empurrão. Alguém precisa de estar muito mal para obrigar a revelar-me.

- Eu não percebo o que se passa – genuinamente confusa, a jovem questionou o que trazia Aeneid ao topo do aqueduto. - Está aqui para me convencer a viver?

- Deixe-me colocar a situação deste modo; se se atirar, eu vou apanhá-la. Se se tentar afogar no Tiberis, eu arrastá-la-ei para terra firme. Sai a meio da noite e deambula pelas ruelas de Roma em busca de violência, eu segui-la-ei e assegurarei que não encontrará nenhum rufião até ao raiar do novo dia.

- O que fiz eu para receber tamanha crueldade? - os olhos da jovem transbordavam com lágrimas. - Quer chantagear-me para continuar a viver? Isto é ridículo. O que lhe interessa a minha vida ou o que faço com ela? Não tem tiranos para pontapear ou fogos para apagar?

Aeneid avançou apesar do aviso anterior, puxando o capuz ligeiramente para trás a presenteando a jovem com um sorriso radiante.

- Se for com isto para à frente, será a primeira pessoa que tenta uma quarta vez depois de eu a ter tentado salvar. Penso que a partir desse momento, a sua situação é extremamente importante para mim.

A jovem soltou uma gargalhada cínica.

- Eu devia ter calculado que era algo desse género. Insultei o seu orgulho de heroína.

Mantendo o seu firme e inspirador sorriso, Aeneid não disse mais nada; se servia à jovem acreditar que arrogância a motivava, deixá-la continuar a acreditar que tal é verdade. Apesar do seu tom casual, a mente de Lídia cavalgava furiosamente, tentando cobrir todos os negros caminhos que podiam ter conduzido a jovem até este pântano. Se ela estivesse definitivamente determinada em acabar com a sua vida, ter-se-ia matado em segredo na sua casa, onde Aeneid ou outros não poderiam intervir. Este suicídio tão publico era um pedido de ajuda, uma tragédia terrivelmente fácil de evitar com um pouco de empatia. Se a jovem realmente acreditava que a sua vida não valia a pena viver, o primeiro passo tinha que ser validar a sua opinião, confirmar os seus receios e finalmente estender uma mão tendo-se estabelecido como alguém que compreende o problema. Tendo estabelecido esse gesto essencial, Lídia finalmente podia focar esforços em melhorar o fado da outra mulher.

- Qual é o seu nome, jovem?

- Novia – ela respondeu, aborrecida. - Podemos descer? Tenho outras coisas que fazer se vou ver o final do dia.

Aeneid inclinou a cabeça.

- Curiosas palavras. A gente morta com quem normalmente lido não possui grandes planos para o resto das suas vidas.

- O meu marido deve voltar de viagem nos próximos dias. Eu quero ter a casa bem cuidada e uma túnica nova à espera dele.

Hymen Clementis. Marido? A rapariga não era mais do que uma criança, Lídia insegura se esta já tinha tido o seu primeiro período. E ali estava ela, casada e responsável pela administração de uma casa.

- Parecem-me plano mais felizes dos que a trouxeram até ao topo do aqueduto – Aeneid aproximou-se e colocou a mão esquerda sobre o ombro de Novia. - Casas e túnicas são apenas coisas. O quanto não iria o teu marido sofrer, chegando a uma casa em luto?

- Alívio, nada mais do que isso. Finalmente ia ver-se livre de mim - Novia mordeu o seu lábio inferior. - Eu sou um peso morto imposto nele pelos nossos pais, um meio de transferir propriedades em Pompeia como dote e estabelecer um novo ramo da família que gerisse essas casas diretamente. Ambos somos apenas peões nas ambições dos anciões das nossas gentes, ferramentas frias e sem afeto entre si. Ele a mim não me é nada, um estranho que nem sequer me acaricia e cujos gestos falham em tocar-me.

A jovem encolheu-se, Lídia lendo imediatamente as implicações que pairavam, por dizer. Intimidade e amor apenas abririam novos receios e perigos para alguém tão novo.

- Porque é que vocês não venderam as propriedades? - Aeneid questionou. -

- Estaríamos à mercê da decisão do Estado e do Município, já que o meu pai não é um cidadão em pleno direito – Novia explicou o melhor que podia, apesar da sua limitada compreensão dos negócios por detrás da sua situação matrimonial. - Isto assumindo que a família do meu marido tivesse em primeiro lugar, dinheiro suficiente para pagar um preço justo; quem tem esse tipo de dinheiro em metal ou moedas? Conversa puxou conversa e o meu pai acabou por ser convencido que esta união seria uma oportunidade para assegurar que as casas irão trazer prosperidade à família. Eventualmente ele teria de preparar um dote para mim, não faz diferença fazê-lo agora ou mais tarde.

Uma gargalhada triste.

- Eles provavelmente pensaram que esta seria a mais simples e óbvia solução.

Aeneid soltou-a e voltou as costas para a jovem.

- Talvez para eles. Aqui vocês estão forçados num casamento sem amizade, sem objetivos e sonhos comuns.

- Nem sequer uma vida comum, Triunfante. Por mais miserável que esta fosse – Novia seguiu Lídia e puxou pelas abas do seu manto. - Você não sabe o quão solitária a minha existência é. Ele passa semanas às voltas com as propriedades em Pompeia, controlando arrendamentos, enviando o dinheiro para os nossos pais e tropeçando neste e noutro mirabolante plano. O que tenho eu? Uma casa velha na Cidade que tento a todo o custo manter sozinha. Roma assusta-me e não conheço ou confio em ninguém, entre quatro paredes estou sozinha com sombras e com demasiado tempo livre entre mãos.

Território fértil para pesadelos vivos e transformar qualquer um em mero prisioneiro de anseios e medos.

- A vida matrimonial é difícil – disse, a tecnicamente solteira sem relações estáveis ou casamento em vista. - Cheia de altos e baixos; este período em que tem encontras é dos mais dolorosos, contudo, a situação só pode melhorar. Roma pode ser a tua casa, compreensão irá brotar quando ambos tiverem tempo para se conhecer um ao outro, boa fortuna pode germinar entre os dois.

Novia voltou a cabeça, passivo modo de comunicar o quanto discordava com Aeneid.

- Ah. Claro, nós estamos aqui em cima do aqueduto, não é? - Lídia depressa se corrigiu. - Obviamente você não pensa que isto possa melhorar. Que esta é a sua vida e isto é tudo o que ela pode ser.

A jovem voltou a erguer a cabeça, os olhos brilhando com uma esperança que ela se atrevia a alentar; alguém que a compreendia, seria tal coisa possível?

- Pouco depois do casamento, eu e o meu marido viajamos até à terra dos antepassados da sua família, para me apresentar aos seus parentes Sabinos e sermos aceites por estes como os mais novos herdeiros do seu legado e os honrar com a nossa união. Eu estava para lá de jubilante – um leve sorriso atravessou os seus lábios, - adorei a região e tudo era cativante e excitante. Foi quando chegámos à necrópole que uma nuvem desceu sobre mim e nunca se dispersou. Li epigrafe atrás de epigrafe, vi-me rodeada pelo testemunho deixado por gerações de jovem noivas e mães, pouco mais velhas do que eu. A sua história finada quando mal tinha começado.

Lídia sentiu um aperto na garganta; Noiva levou as mãos ao peito.

- Ali, entre aqueles epigrafes, jaz o meu destino; é lá que conduz este caminho de tormentos do qual não posso escapar. Eu pertenço ao Submundo, nunca vou conhecer a pessoa que eu posso ser, ou o que os meus filhos e filhas serão. Com esta ideia enraizada, uma solução final começou a ser tentadora; a minha vida é miserável e vai terminar numa cama de sangue. Porque devo eu adiar o inevitável? Porque não poupo a todos o sofrimento que causo a mim e aos outros em pensar que possa sobreviver?

Aeneid lutava contra as lágrimas, relembrando-se repetidamente que ela tinha que ser a inspiração e a tocha contra o desespero. Agachando-se em frente de Novia, assegurando-se que o seu capuz ocultava os seus olhos, ofereceu o mais largo sorriso da sua vida, torturando gengivas e bochechas.

- Esses pensamentos não têm lugar na mente de uma jovem brilhante com toda a vida à sua frente.

Lá estava aquele brilho, de volta ao seu olhar.

Mas o que é que Lídia oferecia?

Que podia esta fazer que salvasse a vida de Novia?

Que palavras podiam espantar os espetros da história de horrores que ela tinha confrontado na necrópole? Como podiam as suas palavras de alento competir com aquelas que a jovem tinha lido.

Espera. Lido? Novia era letrada.

Lágrimas recusaram-se a ser contidas por mais um momento; Aeneid soltou quentes e confortantes gargalhadas numa tentativa de as disfarçar.

- Não é óbvio o que tu precisas, Novia? Um divórcio!

A jovem abriu a boca horrorizada.

- As nossas famílias nunca vão aceitar tal coisa! Eu já estou sozinha assim, não posso ser uma pária aos olhos do meus, já tenho problemas que cheguem.

- Confie em mim, Novia. Tenho a certeza que a sua família vai eventualmente validar as suas escolhas quando ver o quanto beneficiam a todas as partes – o sorriso manteve-se firme, imune à negatividade. - Com o divórcio as propriedades partilhadas como dote não revertem para o seu pai, mas para si, assegurando a sua autonomia financeira. O seu marido volta para Roma, você volta para Pompeia; cada um onde pertence. As casas serão administradas por uma rapariga empreendedora que conhece mais sobre o negócio da família do que o que eles pensam. Os seus sogros tornam-se investidores, lucrando quando uma mais madura Novia repetir os votos.

Encostando os seus lábios à orelha de Novia, acrescentou.

- Os anos passarão e Novia crescerá, não apenas como mulher, mas como cidadã. Quem sabe as amizades que ela irá criar nessa altura. Quem sabe se votos quebrados podem ser reforjados. Uma coisa é certa, a Novia que ainda não conhecemos terá a família que esta à minha frente não consegue sequer imaginar.

- Eu não tenho representação legal – Novia respondeu, afastando-se de Lídia. - Nenhum dos nossos patronos vai ajudar-me naquilo que verão como um ato contra o meu marido e a sua família.

- Pensa que eu iria fazer promessas vazias? A maior ameaça para a liberdade de um povo é a dificuldade dos pobres e oprimidos em ter justa e adequada representação legal. Eu tenho na minha equipa uma das melhores mentes legais desta geração e ele vai de bom grado tomar a defesa do teu caso.

Chorando de felicidade, Novia abraçou a cinta de Aeneid. Acariciando a sua cabeça, Aeneid aproveitou a oportunidade para também chorar.