Borboleta num Livro de Sal

Meu querido Sextus Sergius, é estranho falar contigo através de cartas, cartas que nem sei para onde mandar mesmo que me atravesse a fazê-lo. Os meus problemas parecem tão menores comparando com lutar para proteger tudo o que nós conhecemos da destruição certa. Canuleia e Gegania acham que eu preciso de falar com alguém sobre o que se passou no Templo de Saturno. Custa-me a admitir, mas apesar da Canuleia ser uma vaca convencida, desta vez ela tem razão. Provavelmente ninguém, muito menos tu, irá ler estas palavras, mas o que importa? São apenas um desabafo para me trazer alguma paz.

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Tive o mais inquietante sonho. Um livro, de todas as coisas, um longo pergaminho que prometia revelar-me o segredo por detrás das histórias que contamos uns aos outros e das mentiras que vendemos a nós próprios. Documento tão importante para me roubar o sono, no entanto não me consigo recordar nem do nome nem do autor. Foxgomlob… Fossgolos… o nome dança na minha cabeça, o próprio alfabeto borrando e alternando com copto e etrusco, ou até estranhos que nunca tinha visto. A minha mente estala como um ovo enquanto tento arrancar um nome ao Lethe, a situação que não melhora quando me foco no autor de tão misterioso livro. Nada, apenas uma desconcertante crença que era algo digno e patrício, provavelmente com o seu toque das famílias da Etrúria.

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Após atormentar os servos e fazê-los revirar todos os cantos do Templo em busca dum livro espectral que eu mal consigo descrever, deitei-me com as papoilas numa tentativa de reavivar o sonho. Phantasos foi generoso, trazendo-me de volta ao momento. Numa mão eu tinha o pergaminho fechado, as letras rejeitando toda a qualquer ordem ou sentido. Na outra, uma elegante nota, definindo o documento como estando emprestado a mim. Subitamente tudo pareceu fazer sentido, como se eu tivesse tido o livro na minha posse por meses, recordando-me de passagens completas descrevendo a relação entre homens e a fantasia da inocência e a complicada relação entre cultura, conhecimento e a tentação de permanecer na escuridão. Apesar dessa súbita clareza, o nome do livro continuava a ser estranho à minha pessoa. A pessoa que supostamente me emprestou o texto, essa era clara na nota, mas não mais familiar; Lucius Viburnius.

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Hoje passei o dia em volta das genologias da gens Viburnia. Curiosa família esta; aparentemente há menções a eles em textos datados da Segunda Fundação, mas nada em concreto. Nenhum cargo magistral, nenhum oficial vitorioso, nenhuma propriedade na Urbe. Terei encontrado algo mais bizarro de que um livro efémero, uma família patrícia sem ambição?

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Fui arrancada às minhas fúteis investigações pela mais inesperada visita. Aeneid fez uma visita de cortesia, sobre o pretexto de verificar como estava a lidar com a minha provação no Templo de Saturno. Ela – sim, ela, os rumores sobre esta Triunfante são verdadeiros – é a pessoa mais estimulante que eu tive o prazer de conhecer. Estivemos a falar por horas. Hoje foi um bom dia, descobri coisas bastante interessantes sobre mim e dei por mim a sorrir em privado.

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As nossas irmãs em Tibur acederam ao meu pedido, enviando-me tudo o que tinham sobre os Viburnia. Aparentemente, cedo na sua história passaram a ser mencionados discretamente com referências a borboletas. Possivelmente Sabinos. Tenho que investigar a fundo.

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As frustrações acumulam-se, Sextus. Estou no meu limite. Tarpeia lembra-me constantemente que eu estou na melhor posição a que posso chegar, que temos a oportunidade de fazer mais do que qualquer outra mulher em Roma. Pois eu digo que o que fazemos não chega! À minha esquerda tu enfrentas os gauleses, à minha direita Aeneid confronta a tirania e protege-nos dos nossos piores aspetos. O que faço eu, Sergius? Uma Vestalis está para além dessas coisas, uma Vestalis preocupa-se com a manutenção da comunidade e preservação do conhecimento e da cultura Romana. Isso significa ficar fechada a copiar textos e a assegurar que nada se perdeu? Não é para isto que eu me tornei uma Vestalis. Só algo me dá mais prazer do que aprender algo novo, e é aplica-lo para tornar o dia de alguém, por pouco que seja, melhor. A minha alma só vai repousar quando eu fizer algo significante. Tenho que pensar nisso.

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Sucesso. Cansada de perseguir borboletas, tornei o livro que me atormenta em algo real. Esculpi o melhor sal que consegui obter com o meu salário, criando um crude simulacro do texto que procuro. Usando-o como símbolo da minha demanda, sacrifiquei o meu artifício em halomancia à chama da Deusa. Entre os padrões deixados pelo sal encontrei os guias para o meu caminho. Viviana leu Numa. Eu reparei em Egeria. Ovidia viu uma fonte a brotar.

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Ninguém sabe o que foi feito de ti, Sergius, ou aqueles que sabem mantêm a boca fechada. O meu receio assombra-me, quase arruinando a minha oferenda no bosque sagrado da ninfa Egeria. Uma nuvem de borboletas rodeou a minha oblação de leite e mel. Os auspícios não podiam melhor, eu finalmente sei o que fazer, e apesar disto, nunca tive tanto medo. É altura de alguém o fazer. Vou preparar uma expedição e restaurar os livros de Numa Pompilius às gentes Romanas.

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Passei a noite em branco. É o dia. Vou apanhar borboletas.