Regresso a Casa

Aeneid parou no limiar da entrada, ansiedade testando os limites do seu coração. O enorme Corvo do Submundo encostou a sua cabeça contra a da mulher, curiosidade brilhando nos seus olhos de rubis. O altivo espectro de um impossível ancião espera por ela no interior, em perfeita forma física para alguém morto faz um século, envergando vestes e símbolos consulares.

- Lídia – o lémure que outrora tinha sido Marcus Valerius Corvus chamou pela ela num tom quente e paternal. - Eu compreendo que seja difícil voltar cá depois de todos estes anos. Quero que saibas que esta será sempre a tua casa, mesmo que o Senado das Sombras ainda não te tenha aceitado. Não há necessidade nenhuma de voltares hoje, podemos adiar para um dia mais auspicioso.

O Corvo crocitou e empurrou-a gentilmente. Aeneid baixou o capuz e sorriu enquanto acariciava as penas do pássaro.

- Eu tenho que fazer isto; eu quero fazer isto – Lídia declarou, entrando. Um leve zumbido permeou o ar, à medida que as paredes reagiam à sua natureza Triunfante; esferas de cristal emitiam luz, o pavimento lentamente aquecendo até uma temperatura mais amena e o gorgolhar de água recordando-a da complexidade da rede de tubos necessárias para manter o local minimamente habitável.

- É bom ver alguém de volta ao Ninho. Isto esteve demasiado tempo fechado – Valerius Corvus dirigiu-se à entrada. - Vai demorar algum tempo até que tudo volte a estar como dantes, vou deixar-te explorar um bocado. Mata as saudades em privado.

- Sessão no Senado?

- O Senado das Sombras está sempre em sessão - o cônsul infernal suspirou.

- Há coisas que nunca mudam... - Lídia respondeu com um sorriso, os seus olhos fixos nas rachadelas no teto. O restolhar de asas alertou para a partida dos seus companheiros. Baixou o olhar, embaraçada, sentindo que tudo em falta no Ninho passava julgamento sobre o seu abandono.

A primeira divisão que ela visitou foi também a maior, os banhos. Uma triste Lídia olhou para as largas piscinas, completamente secas; os recantos curvados que davam alguma privacidade sem roupa ou bens pessoais. Ecoando ruidosamente através dos tubos, um fino, mas determinado fio de água começou a correr, atraindo-a.

- É um mistério para mim como estes não são populares na Cidade – o calor da água contra as suas laceradas mãos foi revigorante, relaxando-a e invocando a memória de dias mais simples.

Os banhos impecáveis, limpos e decorados com cores vibrantes, cortinas de exóticos tecidos do Oriente separando os banhos do resto do Ninho. Uma criança desdentada, de sujo cabelo loiro e que ainda tinha de atingir o surto de crescimento que conferiria rara altura, não queria saber de mais nada para além de esconder-se entre as cortinas e espiando os banhos. Um homem nos lados tardios da meia-idade estava de olhos fechados na piscina maior, as ruas roupas espalhadas ao caso. Contavam uma história de combate e violência, rasgadas e manchadas com sangue de múltiplos inimigos.

- É suposto o banho ser uma experiência relaxante – o homem falou numa voz estafada, mas que mantinha uma certa jovialidade. - Como é suposto eu fazer isso com uma espia nas minhas costas, Lídia?

Embaraçada, a criança revelou-se; cabisbaixa enquanto batia com os pés no chão.

- Os meus pais explicaram-me uma coisa que eu não entendi e não consigo parar de pensar nisso– ela desculpou-se.

- O que é tão importante que nem podia esperar pelo fim do meu banho?

- O mestre não vai parar em casa! - ela gritou, exasperada e indignada como só uma criança pode ser. - Ia sair daqui e voltar a ser Keraunos, correndo para bater nos maus!

Mestre Keraunos apenas soultou uma gargalhada. O seu verdadeiro poder era sua paciência sem limites; pelo menos no que era relacionado com Lídia.

Quase sem limites.

Uma lufada de ar frio entrou no banho e Keraunos já não estava na água. Vestindo uma túnica ligeira e apoiado numa bengala, com uma face torcida de dor sentou-se num banco próximo de Lìdia, assinalando à menina que se sentasse ao seu lado.

- Conte-me lá, ó grande filosofa. Que questões a atormentam tanto?

- No mercado chamaram a mim e aos meus pais servi, escravos – Lídia explicou. - Eles bem me tentaram ensinar o que isso significa, mas eu não entendi! Eu percebi que sou servus de mestre Keraunos, que é bom, o mestre é a pessoa mais esperta que conheço, ele de certeza vai conseguir explicar-me. Por favor mestre, ensine-me!

Keraunos respondeu com um triste sorriso.

- Onde eu nasci, escravo, o que eles consideram o mesmo que os Romanos chamam servi, são ferramentas pensantes, não são considerados pessoas – a boca de Lídia abriu-se em choque. Ela era uma pessoa! Os seus pais eram definitivamente pessoas que tinham feito uma pessoa! - Não é o mesmo aqui. Escravatura é um estado provisório, literalmente alguém "a quem a vida foi poupada", alguém que teria morrido ou não existiria sem ser pela graça de outrem.

A pequena criança fechou a boca, olhar pensativo.

- Eu lembro-me da minha mãe disser isso. De como o mestre os salvou e que tinham um débito de vida; se não fosse mestre Keraunos eu nunca teria nascido e por isso eu pertenço-lhe.

- Tal não está inteiramente errado – Keraunos acenou em concordância. - Embora quando cresceres vais perceber que a situação é mais complexa do que esses termos.

- Porquê? - Lídia era tão curiosa como era insuportável – Envolve coisas como liberdade?

- Liberdade. Onde ouviste essa palavra?

- Mestre Keraunos! - a rapariga fez beicinho. - É a palavra mais falada no Ninho! Liberdade isto, liberdade aquilo.

O homem riu-se demasiado, levando a mão aos rins doridos antes de continuar.

- eles não estão errados, Libertas é a coisa mais importante do seu mundo. Se há algo que torna alguém Romano é este eterno anseio por Liberdade.

Lídia levou o indicador aos lábios e mordeu o dedo nervosamente.

- Os meus pais disseram-me que por ter nascido escrava, por pertencer ao mestre Keraunos, não tenho liberdade.

- É verdade, minha filha.

- Mas eu quero ser livre como os outros! - Lídia exigiu.

- Aí é que está a cruel realidade, Lídia! - Keraunos não conseguiu conter outra dolorosa gargalhada. - Ninguém nasce livre! As nossas mães arriscam a vida a trazer-nos ao mundo, os nossos pais trabalham para nos manter alimentados, vestidos, seguros. Eles e o estado investem na nossa educação. Tornamo-nos homens e mulheres no momento em que percebemos que todos são mestres uns dos outros.

Lídia pestanejou os olhos, não tendo percebendo nem metade.

- Lídia, lembraste do aedile?

- Mestre Valerius!

- Exatamente – Keraunos continuou a explicar. - Como seu cliente, é meu dever apresentar-lhe os meus sinais de respeito e oferecer os meus serviços; tal como é o seu dever como um bom patrono não me humilhar, assegurar que não passo fome e recebo proteção. Por seu lado, mestre Valerius deve tudo ao seu pai e deve em todas as ações ponderar como estas refletem sobre a sua família, a pena de morte pairando sobre qualquer possível erro. Todos contribuem para o Estado, que vela pelo interesse de todos, incluindo o escravo que tem pouco para além do que o seu mestre. Servidão é a natureza humana; apenas aqueles que abandonam a sua humanidade e se escondem no mundo de animais e monstros podem afirmar que nada os prende.

A criança encolheu-se, abraçando as suas pernas enquanto tocava nos joelhos com o queixo.

- O pai disse algo parecido. O mundo já existia antes de eu nascer e vai continuar depois de eu desaparecer. Devo respeitar tudo o que aqueles que vieram antes de nós fizeram para nos dar esta oportunidade, que nos permitem viver. Eu não quero ser um monstro!

- O teu pai ensinou-te bem.

Lídia não entendeu a conversa na altura, contudo, nunca se esqueceu dela.

Ou da grande pergunta.

- Liberdade é uma mentira, então? Se somos todos servi uns dos outros, ninguém é livre.

- Liberdade é verdadeira, Lídia, talvez a única verdade que desceu a este mundo – Keraunos rejeitou a declaração da menina. - Ninguém nasce livre. É um facto. No entanto, um ser humano virtuoso deve trabalhar todos os dias para se deitar à noite mais livre do que era ao raiar do Sol. O mundo está cheio de putativos tiranos, que se veem como o teu mestre e não querem mais nada do que roubar a tua liberdade. Liberdade é algo que se conquista, que temos que lutar com cada lufada de ar, que temos que partilhar. É esse o peso que caí sobre chefes de família, governantes e qualquer pessoa que se encontre responsável por outro: não têm apenas que lutar pela sua liberdade pessoal, mas assegurar também que aqueles que contam com ele não veem a sua liberdade ameaçada.

- Como é que eu me liberto? Como é que eu atinjo liberdade?

- Lutando, lutando e não pensar apenas no fim da estrada – Keraunos revelou. - É por isso que estou aqui, sentado contigo; ao falar contigo sobre isto, estou a libertar-te. Ao libertar-te, estou a libertar-me a mim e esse é o verdadeiro significado de servus. A tua vida foi poupada, porque devido a circunstâncias para além do teu controlo, perdeste o controlo sobre a tua própria liberdade. O dever do mestre é guiar-te de volta, ajudar o escravo a voltar a ser senhor da sua vida e capaz de decidir os termos do seu combate pela liberdade. Diálogo, uma vida boa, sentido cívico, sentido de sacrifício comunitário, curiosidade pelo mundo em redor, tudo isto torna uma pessoa livre. Pouco a pouco, o escravo que todos nós somos torna-se em Homem, de servus a Vir.

Lídia fitou o seu mestre, ardendo com determinação.

- Eu quero ser um Vir. Porque não me liberta já, mestre Keraunos?

- Lídia, ouve-me bem com atenção – atenção foi prestada, as palavras gravadas na sua mente enquanto ela vivesse. - O truque mais engenhoso de tiranos é convencerem outros de que a liberdade é algo que pode ser dado, que existe gente que ta pode dar ou tirar. Sempre que alguém te oferecer a tua liberdade, essa pessoa apenas tenciona usar-te para os seus interesses privados. Apenas vais ser livre melhorando como uma pessoa, decidindo como queres que seja a tua vida e lutando para fazer os teus sonhos realidade.

- Parece difícil.

- É a coisa mais difícil que podes fazer, abdicar de liberdade é demasiado tentador. Enquanto não te tornares alma e corpo um Vir, é impossível saber se as decisões que fazes são fruto da tua livre vontade ou se és apenas um fugitivo, um escravo dos teus medos e ilusões.

 

Aeneid levantou-se, secando os dedos no seu manto. Dirigiu-se ao largo atrium no centro do complexo, cheio de estranhamente belas plantas e fungos que cresciam na escuridão do Submundo, incomodadas por incestos espectrais. Ainda com Keraunos na sua mente, deu por si a lembrar-se de outra Lídia: uma demasiado alta para a idade, cabelo curto preso por uma bandana. A jovem corria entre os arbustos, saltando sobre obstáculos improvisados.

Mestre Keraunos entrou em cena. Mirrado e com todo o cabelo cinzento, colocava muito mais do seu peso sobre a bengala. Aproximou-se do centro do atrium, tossindo todo o caminho. Lídia interrompeu os seus exercícios para ajudar o idoso a sentar-se num dos muitos bancos.

- Os teus pais dizem que estás cada vez mais forte, corres cada vez mais longe cada vez mais rápido. Alegra o meu coração ver a mulher virtuosa que te estás a tornar – pausa para tossir. - Estaria a mentir se não tivesse algumas dúvidas sobre a tua educação; a tua mãe pediu-me perdão por não te conseguir ensinar letras.

Lídia sacudiu o suor, corando ao ser confrontada com o seu falhanço.

- Eu não quero meter a minha mãe em problemas, mestre Keraunos. Acredite, ela bem se esforça. O problema é comigo. Se alguém tem que ser punido, tem que ser eu – o silêncio estabeleceu que Keraunos não queria encontrar um culpado ou esperava uma desculpa; ele queria entender o que se passava. - As letras dançam perante os meus olhos, é impossível para mim tirar sentido delas.

- Ler é importante, Lídia. Ler permite-nos relacionar com outros, conhecer o ponto de vista de pessoas a um mundo de distância ou para além do véu da morte. É importante para cultivar a tua liberdade e virtude.

- Eu sei, mestre – Lídia acenou. - Contudo, se me permite, isso é o que livros lhe dizem a si. A mim não me dizem nada, apenas dores de cabeça e confusão. O que o mestre Keraunos descreve eu vejo na face de todos aqueles que encontro, sinto-o no coração de cada homem e mulher. Finalmente começo a compreender tudo o que me tentou ensinar sobre liberdade.

- Ó? - Keraunos fingiu surpresa. - E eu a pensar que não te ia conseguir ensinar nada antes de morrer. Seja; se os livros não te ensinam nada, cabe a mim deixar de ser preguiçoso e tratar de merecer o título de mentor. Deixa-me transmitir a ti o que uma vida dura e muitos livros me obrigaram a aprender.

- Obrigado, mestre! - Lídia demonstrou genuíno interesse. - Sinceramente, há algo que me tem roído as entranhas: eu vejo gente e mais gente a tentar libertar-se, a apostar a liberdade dos outros, apenas para tropeçarem e conspirarem para subjugar os seus pares para subir um pouco mais enquanto substituem correntes de metal por douradas. Tantas maneiras de combater, tantas versões de liberdade, eu tenho receio de perder a perspetiva. Como é que eu posso estar segura de que estou a viver uma boa vida sem, no entanto, infringir sobre as liberdades dos outros? Como eu sei que sou Vir?
Keraunos parou para contemplar o jardim. Hoje, com décadas de experiência, Lídia sabia que ele estava a ponderar qual a melhor resposta que dar para a emergente personalidade da rapariga.

- Tu gostas de correr, Lídia?

- Mais do que qualquer outra coisa – a jovem respondeu prontamente. - Nada como sentir o vento na cara, a paisagem a desaparecer da vista, novas coisas a cada momento, o bater acelerado do meu coração. Nada se compara ao prazer de uma boa corrida.

- Com uma respostas dessas, atletismo claramente dá-te prazer e felicidade – o velho tossiu. - No entanto, quando exageras no exercício ou te distraís, podes magoar-te ao cair, sofrer de exaustão e causares terríveis dores ao ignorar os teus limites. Em suma, aquilo que te dá prazer também te causa sofrimento.

Lídia acenou. Era óbvio. Onde é que Keraunos queria chegar?

- Aí está: é tudo o que precisas para ter uma vida virtuosa. Mantém sempre esse guia junto ao peito e serás uma cidadã exemplar.

- Só isso? Não pode ser tão simples.

- A ideia é simples; a sua aplicação à realidade quebrou homens e mulheres mais sábios do que eu – Keraunos acrescentou. - Foca-te naquilo que te dá prazer, assim como aquilo que traz felicidade aos outros. Claro está, não podes esquecer o espectro do sofrimento. Se algo, por mais prazeroso que seja no momento, trará dor e tormento a ti ou a outro, deves parar e mudar o teu curso de ação.

Lídia olhou para os punhos, fechando-os.

- E se eu só for boa para violência? A única coisa em que sou boa é causar sofrimento.

Mestre Keraunos começou a tossir violentamente, quase caindo do banco. Lídia apanhou-o, depressa acabando com os dois cobertos em sangue.

- Não temos muito tempo, Lídia. Em breve vais ter que tomar o meu lugar na equipa. Esse é um mistério para o qual nunca encontrei uma resposta satisfatória – um triste sorriso. - Espero que tu encontres no coração de outros aquilo que eu não achei entre pergaminhos e livros. O único conselho que posso dar-te é que te assegures que se tens de lutar por algo, é sempre a tua última hipótese e o que defendes vale a pena.

Aeneid atravessou o atrium, luzes acendendo-se enquanto ela o fazia, alguma da mais estranha vegetação mirrando à medida que ela passava ao seu lado. Havia várias saídas; ela escolheu a que lhe era mais familiar.

O ginásio estando em pior estado do que qualquer das outras divisões que tinha visitado. Metade de uma das paredes tinha desabado, espalhando pesos e discos, destruindo vários alvos de treino no processo. Um largo quadro de cortiça estava cheio de pergaminhos, alguns comidos por vermes, outros ainda mantendo um inventário de Triunfantes, as suas tarefas, registo de encontros com inimigos e outra miríade de notas. Ou assim lhe diziam os outros Corvos; Lídia sempre teve que contar com os outros nessas obrigações.

Ao lado do quadro estava algo que ela não se recordava, uma adição nova: um grande mapa do Mediterrâneo, onde estavam marcados pontos de crise e a última posição conhecida dos Corvos. Aeneid confirmou que da última vez que o mapa foi atualizado, todos os Corvos estavam em Roma.

Todos menos um.

Um dos alfinetes, cabeça de osso branco, estava fixo para além das bordas do mapa. Lídia pegou em cada alfinete um a um, deixando o mapa vazio. Voltou para ao pé dos bonecos de treino, levantando o único que não estava partido. Verificando que o seu cestus estava bem apertado e estalando os dedos, descarregou a sua frustração no pobre alvo.

Envergando um manto branco ao invés do atual escarlate, uma Lídia adolescente voava entre vários bonecos, transitando de borrão a forma concreta apenas o tempo suficiente para desferir poderosos murros, mantendo o ritmo frenético por vários minutos. Parou apenas quando um homem careca com o óbvio porte de um veterano entrou no ginásio.

- Onde está mestre Keraunos, Nox? - Lídia perguntou, arfando de cansaço enquanto abraçava um dos bonecos de treino. - Ele disse-me que queria rever o meu desenvolvimento; mal posso esperar para poder agir fora de Roma!

O homem esticou um dedo para interromper a rapariga.

- Keraunos está demasiado doente para te examinar.

- O que aconteceu? - Lídia largou o boneco, preocupada. - Ele estava tão animado ontem.

- Ele está velho, Lídia. Acontece a todos; o seu relâmpago não tem muita mais luz ou trovejar. Mais uma razão para te apressares a substituí-lo. Preparei uma surpresa especial.

O chão do ginásio começou a estremecer, um pilar de pedra erguendo-se no meio. A intrusão telúrica começou a fragmentar-se, lentamente revelando uma enorme criatura humanoide, de pele cinzenta, crânio alongado, enormes e profundos olhos negros, grandes presas e uma inquietante barba feita de tentáculos. Com um grito infernal selou a entrada subterrânea.

Lídia atirou-se para cima dos seus ombros, soltando gargalhadas como uma criança.

- Orcus! Eu vi quando tu enfrentaste aqueles ladrões de túmulos foi fantástico! - a criatura rodou o braço nas suas inumanas articulações, agarrando a rapariga. - Podes ensinar-me alguma coisa depois do exame?

O veterano Nox sorriu, atirando uma romã para Lídia.

- Ele é o teu exame – Lídia e Orcus fixaram olhar por um momento; Orcus projetou na mente de Lídia uma imagem dos dois combatendo. O impossível aconteceu, Lídia tornou-se ainda mais pálida, face tomada por terror enquanto corria até à esquina mais próxima. A criatura levou uma das garras à boca, soltando a mandíbula inferior, os tentáculos empurrando-a até ao chão. Os seus membros esticaram-se à medida que ele se prostrava de quatro como uma bizarra aranha.

- Boa sorte, Pars Alba. O teu teste é conseguir proteger a fruta até o fim - Nox desejou-lhe sucesso, antes de se desfazer em névoa prateada.

Lídia ainda tentava perceber exatamente o que se passava enquanto a bocarra impossivelmente escancarada de Orcus começou a sugar para dentro de si todo o conteúdo do ginásio; bonecos de treino, pesos, roupa coberta em suor, uniformes suplentes. Tudo, incluindo uma atarantada rapariga que corria no lugar onde estava, procurando algo onde se pudesse agarrar sem nunca largar a romã.

Um exercício fútil! Lídia lutava para manter a mesma distância, mas a sucção era demasiado forte, obrigando-a a correr cada vez mais rápido para impedir ser tragada. Depressa até isso se tornou insuficiente, a rapariga notando com horror à medida que a distância ia lenta, mas seguramente diminuindo.

Admitindo a futilidade da resistência e evitando cansar-se para nada, Lídia abrandou um pouco, aproximando-se de Orcus. Aproveitando a súbita aceleração, saltou e pontapeou a criatura nas fendas que passavam por narinas; a sua massa mesmo no centro da face.

- Desculpa! Desculpa! - Lídia gritou exasperada ao mesmo tempo que girou à volta do seu pescoço, tentando evadir-se dos tentáculos. Saltou para cima das costas de Orcus, esmurrando-o violentamente; este lamentou-se, mas continuou a engolir com a mesma intensidade. Desesperada, Lídia atirou-se contra uma das pernas da criatura, aplicando todo o seu peso para tentar fazer Orcus colapsar; ao ver o seu examinador a vacilar, Lídia soltou um suspiro de alívio e prontamente usou a sua rapidez para saltar entre membros, golpeando-os.

Orcus caiu ao chão, conferindo a Pars Alba o luxo de sonhar com a vitória. Lídia sorriu, ponderando se devia tentar recuperar distância ou continuar a debater-se contra Orcus. O seu dilema não durou muito, o próprio chão traindo-a.

Ao invés de se levantar, o seu examinador de algum modo inverteu a gravidade por um crítico momento, atirando Lídia contra o tecto e reerguendo-se. O efeito acabou tão subitamente como surgiu, atirando a rapariga com o chão. Os seus sentidos afogados pela dor, custou-lhe a reconhecer duas coisas importantes.

A sucção puxava-a de novo.

Tinha deixado a romã cair durante o combate, a fruta rebolando alegremente na direção da bocarra de Orcus.

- Não, não, não – Lídia suplicou, tremendo enquanto se levantava; queixumes em vão, o seu examinador tragando a romã de bom grado.

Acabou. Tinha falhado.

Tinha? Dis Pater, não.

Ela era Vir.

Pars Alba franziu o sobrolho, puxou o seu capuz branco para cima e presenteou o mundo pela primeira vez com o sorriso convencido que iria tornar-se o sinal de marca de Lídia Triunfante. Evocando o potencial absoluto da sua centelha divina nos seus olhos brilhantes, Lídia correu na direção da boca de um muito espantado Orcus.

Longo silêncio caiu, a criatura olhando em volta do ginásio. Com grande esforço, Orcus voltou a fixar a sua mandíbula. Nox voltou a aparecer, braços cruzados.

- Eu nunca pensei que ela chegasse a esse ponto – o veterano admitiu. - Estou impressionado.

Uma ventania irrompeu pelo ginásio, uma maltratada Pars Alba parando em frente deles, comendo de uma romã aberta.

- O teu estômago leva a um local interessante – Lídia comentou. - Isso explica muitas coisas sobre como as vossas operações tendem a terminar.

- Descansa, Lídia. Mestre Keraunos vai querer saber o quão bem te portaste hoje - Nox deu-lhe os parabéns. - Vamos, Orcus.

Inicialmente seguindo Nox, Orcus voltou-se para trás; Lídia olhou-lhe de soslaio. A criatura enviou-lhe uma imagem, ela fazendo exatamente o que ela planeava. Fitando os seus profundos olhos negros, sem palavras, Lídia percebeu que Orcus sabia o que ela ia fazer; de algum modo ele compreendia-a e parecia querer dissuadi-la.

- Eu tenho que fazer isto – ela murmurou. - Espero que tu e os outros um dia me perdoem.

Orcus acenou com a sua enorme cabeça, deixando Lídia sozinha.

A rapariga não perdeu tempo. Se Orcus tinha percebido, não iria tardar muito até outros seguirem o seu exemplo. Mestre Keraunos tinha dito que ela tinha que ganhar a sua própria liberdade; fizesse ela o que fizesse, sentia que em Roma e ao serviço dos Corvos não podia crescer mais. Partia-lhe o coração, mas talvez conseguisse ser livre longe, noutro canto do mundo.

Lídia sabia que se ficasse mais um momento iria convencer-se a ficar. Leal à sua resolução, correu mais rápido do que alguma vez correu na sua vida.

 

Aeneid não reparou quando as lágrimas começaram a escorrer. Mal notou o boneco de treino a quebrar-se ou o regresso de Valerius Corvus.

- Deves ter imensas questões. Sobre o que se passou depois que partiste – o cônsul lémure constatou num tom suave e doce.

- Apenas uma – Lídia secou os olhos. - Porque é que eu não fui capaz de lhes dizer adeus? Eu nem lhes dei a oportunidade de me deixarem ir; eu fugi e pronto. Se eu me tivesse despedido, eu sinto no meu coração que eles me iam perdoar, por mais que lhes custasse.

Valerius Corvus sorriu.

- Tornaste-te numa mulher dez vezes mais corajosa e capaz do que qualquer outro treinado entre estas quatro paredes. E olho para ti e volto a ter esperança que os Corvos possam voar de novo, mais alto do que nunca. Onde quer que eles estejam, estarão radiantes por saber que voltaste para continuar o seu trabalho.

- Certo, trabalho. Já me esquecia, há sempre algo a fazer no Ninho.

- Descanso é a domínio dos tiranos e tiranizados. O Homem livre é livre para constantemente laborar.

- Não esta Vir. - Lidia retirou-se. - Foi um dia demasiado longo. Boa noite, cônsul. Começamos cedo amanhã.

Ela não achou um leito no Ninho, ela nao achou leito nenhum em Roma.

Lençóis esperavam por ela do outro lado do mar, uma cama quente com outra companhia, noutro continente.

Ela de facto voava alto.