Em Ponto, Meio Dia

Fraco gymnasium era aquele, um quadrado de tijolos cujas paredes cobertas de gatafunhos e maldições escondiam suor, trapos e uma vergonhosa coleção de sacos de boxe. Ela não se importava com as fracas condições do edifício; estando na periferia da Urbe, tinha a oportunidade de crescer numa impressionante palaestra. Pilhas de pedra e traves de madeira suportavam alas temporárias que protegiam os espetadores dos elementos e criavam espaços privados de treino. Neste local seguro, os jovens e os menos abastados podiam conviver e estudar, aprimorar-se para enfrentar a selvajaria do mundo.

Roma podia não ser a sua casa, mas estes eram os seus terrenos de caça.

Lídia empurrou os portões do gymnasium, dirigindo-se ao centro da palaestra. Os seus cabelos dourados ocultos por um esforço combinado entre peruca e um lenço, a sua leve túnica de exercício revelando a musculatura que normalmente era mais discreta, azeite brilhando na sua pele enganosamente mais escura. Saudando os jovens nas alas centrais, ocupados com os seus treinos e leituras, acenando aos outros atletas, Lídia continuou com o seu avanço. Contente, ergueu as mãos ao alto e começou a aplaudir enquanto descrevia um círculo, levantando uma nuvem de pó e folhas mortas.

Depressa tinha cativado a atenção dos presentes.

- Que dia é hoje?

- Bellum! Desafio! Desafio! - começaram os mais novos a uivar.

Lídia levou a mão ao ouvido, como se não conseguisse ouvir.

- Não estou a ouvir nada. Que dia é hoje?

- Desafio! Desafio! Bellum!

Dois servos surgiram, carregando uma tábua. Eles diziam a Lídia que no topo estava escrito o nome de Kleitomachos e ela acreditava. Aceitou um pedaço de giz e ergueu a placa no ar.

- O que aconteceu a Acastus!

- Derrotado!

Lídia marcou um risco na placa.

- Myron de Siracusa! Korudon o Cínico?

- Derrotado! Derrotado!

Mais duas marcas.

- E Kleitomachos?

O público começou a vaiar, aumentando a intensidade do seu clamor quando Lídia repetiu a questão.

- Onde está o prodígio de Hellas? Onde está o mestre das cem modalidades?

Torrente de insultos.

- Quem é o vosso campeão?

- Lídia! Lídia!

- Quem vos representa?

- Lídia! Lídia!

- A quem é que Kleitomachos se recusa a enfrentar, semana após semana?

- Lídia! Lídia! LÍDIA!

A pugilista atirou a placa contra o chão.

- Pelos vistos ele teme mais do que cães a copular. Já que o melhor que a Grécia tem para oferecer não aceita o convite para um duelo – Lídia apertou os nós dos dedos. - Alguém está disposto a competir pelo meu título?

Um confronto fulminante seguiu-se, uma fileira de atletas desafiando Lídia enquanto espetadores apostavam e celebravam os simples prazeres do desporto. Deslizando por debaixo de um golpe de cima de um raro pugilista que podia competir com ela em altura, Lídia terminou o encontro ao descrever um círculo e acumular o seu momento no punho. Um novo desafiante aproximou-se, Lídia mantendo o jogo de pés e nunca baixando a guarda. Murros colidiram contra os seus braços como ondas contra as arribas, a derrota desabando com uma única espetadela. O seguinte depressa foi apresentado ao chão por um braço que descaiu num murro em gancho. Depressa excitação cedeu ao aborrecimento, cada novo desafiante falhando em ganhar mais do que suor e humilhação; nada mata o interesse em apostas como uma corrente de vitórias.

À medida que cada vez mais espetadores abandonavam a palaestra, Lídia admitiu derrota e pediu a toalha. Dois pugilistas substituíram-na ao centro, a ofegante mulher dirigindo-se a um canto para encerar o seu cestus.

- Salve, Lídia! - cumprimentou-a um atarracado homem de meia idade já careca, o seu largo torso cheio de cicatrizes, braços e músculos traindo a constituição e o ofício de um clássico gladiador. - Continuas a mesma teimosa de sempre. Olha para estas alas vazias; se queres meter rabos nos assentos, tens de aceitar os conselhos que te tenho para oferecer.

- Isto não é um anfiteatro e eu não sou uma gladiadora, Calpurnius – Lídia sorriu enquanto limpava a testa. - O que serviu para ti provavelmente não aplica a mim.

- É justo – Calpurnius admitiu. - Mas o que te custa entreteres o pedido de um velhote com demasiado tempo livre? Pensa que estás a dar uma última graça a um moribundo com um pé no Submundo.

O sorriso transformou-se numa gargalhada.

- A luta onde Caeso Calpurnius vai perecer ainda não está agendada, ainda tens muito fogo dentro de ti– Lídia indicou com o queixo dois lugares abandonados e vazios. - Tens razão, não custa nada emprestar um ouvido a um companheiro de clube.

- Por quem é que tu lutas, Lídia? – Calpurnius fez a pergunta retórica enquanto se sentava. - É raro que encontres um oponente que te obrigue a dar o litro, por isso não é de certeza com respeito pelo adversário e em nome de bom desporto. Pelo público? Estás a fazer um trabalho miserável se tal é o caso, tão distante e concentrada no combate que não te preocupas em vender a tua luta e partilhar o impacto de cada golpe com a audiência.

Lídia cruzou os dedos, pensativa. As palavras do gladiador tinham valor, apesar de não ser imediatamente aparente o que ela podia destilar desta conversa.

- Tu sabes porque é que eu luto. Eu faço-o para sentir a força e radiar a confiança nas minhas habilidades. Eu não quero descer ao nível de um simples brutamontes, contudo, força e competência são os melhores modos de inspirar a populaça.

Calpurnius soltou uma gargalhada seca.

- Ah! Andas a passar muito tempo no Palatinato, isso parece conversa de gente aborrecida a pensar em como escalar o próximo patamar do Curso de Honras. Força e competência a melhor fonte de inspiração… ridículo! Um dia, tu vais perder. Pode nem ser a tua falta, podes dar tudo o que tu tens, mas pura e simplesmente não é o teu dia. E depois? Queres vencer até que tenhas a tua primeira e última derrota? Tu és boa, mas ser bom não chega e haverão encontros em que não podes sair vitoriosa ou não estás disposta a pagar o preço exigido. Toda a gente ganha e toda a gente perde, até uma criança sabe isso. Porque colocas então tamanha ênfase em algo que é irrelevante e suscetível aos caprichos da Fortuna? Se queres inspirar o público, foca-te no modo com que lidas com sucesso e falhanço.

Lídia forçou um sorriso neutro, enquanto a sua mente se voltava para batalhas em que derrota ou fuga não eram opção. Desafios que ela tinha falhado fora da palaestra.

- Eu suponho que não considere esses fatores quando a minha vida não está em jogo – sorriu genuinamente. - Ou pelo menos não tanto como a tua. O que faço eu de tão errado que pode ter resultados errados?

- Tu não partilhas o momento, como já disse antes, és péssima a vender a ação. Tens de envolver a audiência, fazê-los sentir o teu esforço como se fossem eles a combater, mostrar vulnerabilidade e hesitação. E se algum dia alguém aterrar um murro na tua face, tens de mostrar o quanto te custa continuar a combater, o quanto doí. Convencer que sim, é o teu pior momento, mas manténs a tua postura firme e clara, não cedendo nem um passo.

 

- Isto é pugilismo, Calpurnius. Sem falar que nem sequer é o meu principal ofício, é praticamente um produto de ócio. Exercício, é quando finalmente posso relaxar – Lídia espreguiçou-se. - Soltar toda a minha frustração num meio que me recompensa por o fazer.

O olhar intenso do velho gladiador fez com ela fizesse uma careta.

- Deuses. Tu estás realmente preocupado comigo. Isto é por causa do clube? Eu pago a minha parte e não me vou renegar no futuro.

- Finalmente conseguiste assegurar a tua liberdade, a última coisa que quero ver é os teus débitos acabarem contigo sobre o mancipatio de alguém.

- Ouviste falar disso, hum? - Lídia murmurou. - Tive de o fazer para assegurar a liberdade de outro.

Sorriso convencido.

- Sabes que mais? Eu sinto falta de Adara. Que dizes de juntarmos o clube num festim, honrando-a e partilhando alguma felicidade com ela? Há alguém especial que te tenho que apresentar.

Caeso Calpurnius bateu-lhe com uma palmada amigável nas costas, desbobinando em jocosas provocações misturadas com confirmações de que partilhava o mesmo desejo. Nem notou que tinha perdido Lídia, os olhos da mulher perscrutando os céus.

Apanhado um vislumbre de uma armadura negra.

- Eu tenho que ir. - Lídia afastou a mão de Calpurnius, forçando uma expressão confiante. - Não esqueci os teus conselhos e não esquecerei os nossos planos.