Vestalis

A Cidade estava de luta pela perda de um Cônsul.

Em busca de respostas ao inimaginável, as Gentes procuraram comungar com o divino.

As Vestalis estiveram ao nível da ocasião, partindo de Roma em peregrinação aos choupos negros da Floresta de Aricia. Incitada por inspiração divina, uma delas partiu em busca do conhecimento perdido de reis e dos cem pais dos Romanos.

Durante a segunda semana da expedição a chama sagrada do templo de Vesta ergueu-se descontroladamente, deixando a Vestalis Maxima com sérias queimaduras que colocavam a sua vida em perigo. Os sinais não eram auspiciosos; a demanda espiritual foi declarada um falhanço.

A Cidade preparando-se para enterrar uma urna vazia para a sombra da Vestalis perdida, pequenos pés arrastaram-se até Roma, braços apertando caros mistérios encharcados em sangue.

As Vestalis estiveram ao nível da ocasião.

 

 *

 

O trio de senadores deslocou-se através das ruelas atulhadas o mais rápido que lhes foi permitido, os seus guarda-costas e clientes tentando a impossível tarefa de reencaminharem o curso das massas indisciplinadas; a sua urgência apenas atraiu a curiosidade dos transeuntes, conferindo-lhes uma crescente comitiva. Enquanto dois deles tinham sido sensíveis o suficiente para envergar túnicas largas e causais, o senador na liderança insistia em continuar em toga, não tão branca após os servos falharem em mantê-la longe da sujidade e pó. Finalmente chegaram ao seu destino numa das importantes ruas do Palatino conduzindo ao Circus Maximus, onde dezenas de trabalhadores cobriam paredes delapidadas com gesso e tinta. Três lictors curiati e os seus homens vigiavam o local dos trabalhos, depressa se colocando entre os senadores e aqueles sobre a sua guarda.

- Salve, senatores. Temo que esta empreitada está a ser diretamente gerida pelo sacerdócio de Vesta – um lictors curiatus de aspeto infeliz explicou.

- As sacerdotisas estão a agir para além da sua autoridade, isto tem que ser parar imediatamente – o senador que envergava a toga argumentou, fazendo com que o guardião sagrado abrisse a boca em protesto.  Recebendo um vislumbre de uma miúda com uma grinalda de margaridas e uma magra e alta mulher com cabelo longo e uma face de inata exasperação, os senadores forçaram caminho, sem paciência para lidar com lacaios.

- Canuleia, Ovidia! - um dos senadores em roupas casuais chamou pelas mulheres. - Este tipo de intervenção dos deveres de magistrados eleitos não pode acontecer. O que é que se passa aqui?

A alta rolou os olhos, cruzou os braços e recuou um par de passos, revelando uma terceira sacerdotisa; uma pequena jovem piriforme com pele cor de azeitona e membros cobertos em nódoas negras e cortes, demasiado atarefada coordenando os operários e pintores. Reparando nos recém-chegados, voltou-se para os enfrentar, presenteou-os com um largo sorriso e olhos brilhantes; reconhecendo-os deixou os senadores confusos e chocados. Ela amou todos os segundos desse momento.

- Arpineia – o senador da toga avançou, – eu devia ter calculado que tinha regressado. O que é que pensa que está a fazer?

A radiante Vestalis inspirou profundamente, projetando as suas palavras através das suaves, mas poderosas vibrações das suas cordas vocais.

- Sigo divina providência e inspiração. Arpineia ergueu os seus braços e queixo pontiagudo. A jovem Ovidia apertou as suas mãos, os olhos da mais alta quase saltaram das suas órbitas. - Egeria falou comigo, transmitindo-me o conhecimento que precisamos para preservar a nossa comunidade e a união entre Gentes. Ela foi extremamente reticente na importância da simplificação e repetição de mensagens que reforçam a união cívica e o interesse pelos afazeres políticos.

- Essas novas são excelentes, Arpineia – o silencioso senador finalmente falou. - Contudo, se é para aplicar aquilo que aprendeu, tem que se dirigir aos Consules ou pelo menos ao Pontifex Maximus. Eles podem apresentar o caso ao senatus e ser adequadamente aconselhados.

- Com o devido respeito, Senador, um dos Cônsules está morto. O outro combate a Norte, juntamente com o nosso caro Pontifex Maximus e um terço do Senado – Arpineia baixou os braços, continuando no mesmo tom suave. - Iriam ser necessários meses para fazer algo no qual cada dia conta. Temos que convocar os cidadãos e alimentar as chamas do espírito cívico, e temos que o fazer agora!

- Basta -declarou o Senador. - Como seria de esperar de uma rapariga equestre, esquece-se que agir bruscamente com boas intenções pode ser bem pior do que esperar para seguir protocolo e tradição. Não confunda consideração com hesitação, Vestalis.

- Podemos facilmente se este ato é culpado por ultrapassar os limites impostos pela Lei, Canuleius – um dos seus pares interrompeu-o, acenando na direção da exasperada e alta Vestalis - Canuleia Vestalis, o historiae et iuris collegium não está a cargo de si? Não penso que consigamos um melhor jurista, dadas as circunstâncias.

Não propriamente feliz, Canuleia colocou uma mão sobre o ombro esquerdo de Arpineira; a face da mais pequena Vestalis contorceu-se de dor.

- As ações do sacerdócio de Vesta estão abrangidas por precedente histórico e suporte constitucional; desde que usem apenas os seus salários e atuem através de indivíduos e propriedades privadas, não precisam de responder a nenhuma autoridade magistral. Obviamente, a partir do momento em que usem recursos públicos, impõem-se sobre afazeres públicos ou precisam de apoio dos cofres do Estado, o sacerdócio estará a agir inconstitucionalissimamente.

- Eu estou satisfeito – o mais calmo dos senadores aceitou e partiu. - Eu não posso esperar por ver o que esta juventude prepara. Vale, Vestalis.

- Algo aqui tresanda, Arpineia – Senator Canuleius fez a sua toga deslizar ao longo do braço enquanto apontava o dedo acusadoramente na direção da rotunda sacerdotisa. - Vou estar de olho em si e no seu Collegium e estarei pronto a apresentar uma moção assim que me der uma desculpa para tal.

O sorriso de Arpineia encolheu, acumulando-se em pocinhas nas suas deliciosas bochechas, finalmente desaparecendo numa fina linha afetada por determinação.

- Isto vai piorar antes que melhore – O indicador esquerdo de Arpineia descreveu um largo círculo como que tentando abranger toda a Urbe. - Como tal, estes? - Agora era a vez do indicador direito, um círculo mais pequeno e intimo que englobava as Vestalis e os seus trabalhadores. -  Estes vão ser parte da solução. Algumas pessoas pensem o que pensarem.

As tensões aumentavam, todos fitando-se uns aos outros. Arpineia e Canuleius pareciam estar a meros momentos de se desafiarem.

- Parece que hoje todos querem testar-te em História e Lei, Canuleia – a pequena Ovidia falou com a sua profunda e grave voz. - Importas-te que eu reveja um caso não muito distante contigo? Eu não entendo os complexos detalhes, por mais que pense no assunto.

- Claro, fofa – a expressão agonizada de Canuleia relaxou um pouco – O que foi?

- Porque é que o Cônsul Publius Claudius Pulcher foi julgado e declarado culpado de incompetência depois de ter perdido a Batalha de Drepanum durante a última guerra? Sempre pensei que aconteça o que acontecer, um comandante não pode ser culpado pelos caprichos de Fortuna e ser derrotado após uma batalha bem-combatida.

- Oh. Isso - Canuleia e o seu pai trocaram um olhar conhecedor. - Claudius Pulcher não foi arrastado para um tribunal por causa da sua derrota às mãos dos Cartagineses. Foi por causa do seu falhanço em reconhecer os presságios e maltratar as aves sagradas.”

A face de Arpineia incandesceu novamente.

- Canuleia, descreverias a situação como ele tendo recebido o que era devido por desrespeitar galinhas sagradas? - voltando a revirar os olhos, a alta Vestalis abanou a cabeça de modo concordante.

O senador finalmente aceitou derrota e considerou o valor de uma retirada tática, olhando de soslaio para as formas e manchas que os pintores espalhavam ao longo das paredes reparadas.