O Pirata, A Oráculo E O Seu Monstro

Nuvens de tempestade apareceram subitamente sobre o plácido lago, juntando-se a desagradáveis descargas de enxofre num esforço para arruinar o que seria de outro modo um agradável dia ao Sol. Céu e terra colidiram, causando a implosão de algo sobre as águas, uma onda de névoas amarelas, cinza e brancas cobrindo o reino do real. Caminhando sobre o escaldante vapor seguia um Grego, alto e mulato, dono de uma impecável barba ruiva. Numa das suas mãos segurava uma máscara feminina de cera encarquilhada e quebrada. Na outra, um longo tubo de bronze gravado com complicados padrões demasiado subtis até para o mais preciso dos artesãos. Saltando sobre os borbulhantes jatos de água e brincando com as névoas, o homem avançou até à margem dançando as suas boas fortunas ao som de música que mais ninguém podia ouvir. Atirou a sua máscara derretida para a água assim que chegou à costa enquanto procurava por uma pedra conveniente. Uma nuvem de vapor cobriu-a, desaparecendo num turbilhão e revelando um extravagante manto de seda e uma longa túnica azul com enlaces dourados de identidade arcana. Vestindo-se e sentando-se, o Grego relaxou e permitiu-se a meditar. O mundo dividiu-se, rearranjando-se ao redor de si. Quando voltou a abrir os olhos já não estava ao lado do lago vulcânico, mas sim rodeado por areia negra de alguma costa italiana enquanto gaivotas o sobrevoavam. Um barco à vista, aguardando pacientemente. Um barco mais pequeno aproximava-se, a alegre tripulação acenando e saudando ao reconhecer o homem.

- Capitão! - Um nativo kemet do Egito, cujo porte transmitia a sua responsabilidade como navegador, recebeu o Grego. - Bem-vindo a bordo. Todos nós já sentíamos a sua falta; espero que a sua expedição tenha sido bem sucedida?”

- Melhor do que eu me poderia atrever a esperar. Aqui. - O homem Grego colocou o tubo de bronze nas mãos do companheiro mais próximo, que depressa o fez circular entre a curiosa tripulação. - Se eu colocar isto nas mãos da pessoa certa, posso assegurar que cada um de nós se pode reformar para uma vida de rei. Levem isso para os meus aposentos, eu vou decidir o que fazer com isto e planear um curso mais tarde. Antes de mais nada, Ammon, conte-me exatamente o que tem feito enquanto eu andei a brincar aos mestres e escravos com os Latinos. Onde estão as nossas outras embarcações?

- Xenophon foi apanhado por uma tempestade e voltou a Regium para reparações; Salaminia decidiu que podiam fazer algum dinheiro à custa dos Celtas e da última vez que falamos eles iam encontrar-se com os seus líderes e negociar o seu transporte para fora de Itália.

- Vamos então navegar Sul, encontrar-nos em Regium. De seguia vamos unir forças com Salaminia e receber os Gauleses a bordo. Assim que os tenhamos separado do seu espólio, ancoramos em Cartago onde os venderemos como escravos. De seguida voltamos para Alexandria onde gastamos este desonesto tesouro – a tripulação já celebrava antes que o seu capitão terminasse de falar. - Vou-me retirar por hoje, preciso imenso de descansar; se alguém me incomodar, espero para bem deste que o faça carregando figos e vinho.

O Grego deslocou-se aos aposentos do capitão, direto à cama. Enquanto repousava no leito, olhos pesados procuravam pelo seu prémio no quarto, finalmente encontrando-o repousando sobre uma delicada almofada. Cerrou os olhos lentamente, enquanto estudava o seu brilhante troféu com o terceiro olho.

- Como tenciona usar esta relíquia, Diodorus? - Uma voz metálica ecoou na sua mente, o seu assento carregando os traços de um dialeto arcaico de Grego. - Nada é sagrado para gente da sua laia.

- Olá Sibila. Qual de vocês tenho a duvidosa honra de receber na minha cabeça? Cumae? Parece-me uma boa aposta, nenhuma das outras teria qualquer interesse nos afazeres dos Romanos.

- Estou a ver que já conheceu as minhas irmãs. Excelente. Deve saber então, nós não nos damos a vagos interesses nem desperdiçamos palavras. Eu não me dirigiria diretamente a si se não fosse extremamente importante. Espero que ouça cuidadosamente o que eu tenho a dizer, já que esta pode ser a primeira e última vez que falamos.

- Espere, espere! Antes que diga algo mais, deixe-me mostrar-lhe algo – Diodorus levantou-se, deambulando em volta do quarto enquanto estalava os dedos, procurando por algo. - Eu não gosto de comunicar mentalmente, a minha mente tende a esmorecer e o resultado é uma terrível, terrível dor de cabeça. Talvez eu tenha aqui um outro transmissor para além da minha caveira.

- Pode parar quieto e escutar ao invés de remexer. É inútil; este é o único modo de comunicação que nos resta. Qualquer que seja o primitivo sistema que você tenha desenrascado, não vai funcionar.

- Minha querida Sibila, por favor, dê-me algum crédito. Asseguro-lhe que isto definitivamente vai funcionar – Diodorus acabou por remover uma pele de lobo de cima de um baú, abrindo-o para revelar uma cabeça de bronze representando uma austera beleza. Retirando-a de entre linhos, o Grego foi rápido a depositar esta relíquia na mesma almofada da outra. Com um sorriso travesso, ponderou.

- Ainda está aí, Sibila?

A cabeça de bronze inclinou-se, uns meros graus.

- Sincronização perfeita – a voz metálica ecoava agora de lábios bronzeados. Se a dona da voz estava de algum modo incomodada pelas implicações levantadas pela posse do Grego do artefacto, não o mostrava. - Agora, Diodorus de Alexandria, podemos regressar ao assunto em questão? Quais são as suas intenções para com o conteúdo desse tubo? Compreende sequer o que tem na sua posse?

Diodorus limitou a sua resposta a um encolher de ombros.

- Se é para ser perfeitamente honesto, eu não sei exactamente o que tenho aqui. Não sei, e é irrelevante para os meus propósitos. Sei o suficiente, é perigoso material de leitura e um dos infames livros negros de Numa Pompilius. As raízes da sociedade Romana e as suas alianças com deuses e gente foram seladas e vinculadas graças ao conteúdo de tubos como este. Certamente, não é um prémio tão valioso como o nome do protetor divino da Cidade, contudo, alguém determinado ou desesperado o suficiente pode tecer vis e poderosas bruxarias com isto. Talvez algo mau o suficiente para apagar esta alcateia da face da Terra de uma vez por todas.

A Sibila entregou-se ao silêncio, como se as palavras do Grego lhe tivessem dado muito que pensar. O mais provável era que esta esperasse para ver se ele queria acrescentar mais qualquer coisinha.

- É você essa pessoa? Está assim tão desesperado e determinado em ver Roma cair, Diodorus?

- Eu? Não, temo que eu sou mais pragmático e mercenário nas minhas motivações. Eu preciso de ouro e prata para os meus propósitos e os Romanos têm sido bastante bons a criar inimigos. Quem pensas que pagará mais? Eu estava a pensar vender aos Cartagineses, contudo, não posso ignorar o facto que tive que matar alguns dos seus agentes para conseguir apoderar-me disto. O que pensa a grande Sibila, eles irão receber-me como um caro mercador ou cortar-me como um mero ladrão?

Nenhuma resposta da parte da cabeça.

- Eu posso sempre dirigir-me aos Barcas, mas ambos sabemos como é que eles são, não vão pagar por nada que não possam tomar à força. Eu mencionei já quão fácil é para os Romanos criar inimigos? Posso encontrar alguns aqui na Itália ou dirigir-me a Este e procurar vender nos mercados da Anatólia ou Alexandria. O que diz? Que não preciso de navegar tão longe? Sibila, estás a dizer-me que o fedelho que se senta no trono da Macedónia quererá aprender a ler dos diários do velho Numa?

- Essas três últimas podem bem ser as mais sábias e sensíveis das escolhas, Diodorus – a cabeça finalmente perdeu a paciência, interrompendo as provações do pirata. - Isto é, se o teu objetivo for apagar de uma vez por todas os ideais democráticos do mundo helenístico. Os febris estados livres do mundo Grego apenas sobrevivem graças ao delicado equilíbrio de forças entre as três hegemonias. Algo com este poder pode desequilibrar as tensões demasiado e dar ao mundo outro grande tirano.

- Finalmente disse algo que me pode persuadir, Sibila – O pirata Grego soltou uma ruidosa gargalha e agarrou no tubo de bronze, fazendo-o girar nas suas mãos. - Se dar isto ao Leste prejudica as minhas gentes e o Oeste promete-me nenhuma segurança, talvez deva procurar por compradores no Norte. Certamente esta horda Gaulesa está manca e moribunda, mas não há falta de Celtas nos bosques e montanhas. E eu sou um homem paciente, se os Celtas não estão interessados, há sempre as misteriosas tribos Germânicas do país de gelo e morte.

- Existem alternativas que ainda não considerou – A Sibila apontou.

- Sul? Eu conheço alguma gente lá, certo, mas eles já sofrem demasiado às mãos dos Púnicos. Se os Romanos forem eliminados, o seu fado tornar-se-á mais negro. Não, estes não irão lucrar disto.

- Pode pura e simplesmente destruir isso, Diodorus. Ninguém sabe que o têm, ninguém virá à procura disso. O mundo pensa que estes segredos estão perdidos. Mergulhe isso em vinagre, sele o tubo com crude e atire-o para o fundo do oceano. Não lhe pertence, nem nenhum outro mortal possui mais direito de receber este saber. Nunca devia ter escavado isso do consciente coletivo de Alba Longa, e nada bom pode vir de algo conseguido através de traição. Por acaso já considerou o fado a que condenou aquela brilhante jovem mulher? Eu sei as responsabilidades que assentam sobre os seus ombros, contudo, tal comportamento não é digno da sua posição é uma desgraça para o seu nome.

O pirata franziu o sobrolho, os seus olhos vazios traindo o seu desgosto apesar de continuar com um sorriso de orelha a orelha.

- Ó? Porque faria eu tal coisa, especialmente se sou uma criatura tão desagradável? Sibila, desiste. Seja alguém de carne e osso ou feito de engrenagens, eu sei bem quando alguém me esconde algo numa tentativa de me manipular. Será que a bruxa de Cumae tem um fraquinho pelos Romanos? Ao ponto que ela está disposta a sacrificar a sua missão? Ó sim, eu sei tudo sobre isso. As tuas irmãs conseguem ser muito faladoras quando auto preservação inunda os seus circuitos.

A cabeça voltou-se, os seus olhos sem vida fitando Diodorus.

- Entre as tribos de Itália estão algumas das únicas crianças do Homem que podem preservar os ideais e conhecimentos dos seus predecessores. A sua gente falhou, Diodorus, a sua ascensão imperfeita deturpou-os e mudou a sua natureza. Contra todas as hipóteses, a continuação do seu trabalho pode ser apenas possível com a ajuda dos herdeiros dos seus inimigos mortais. Olhe em volta para os seus compatriotas, alimentando crescimento cancerígeno nos cantos negros do mundo e abraçando decadentes vidas de autodestruição. O que quer que tu ou os outros possam pensar sobre os Romanos, acredito que os Romanos sejam o vetor através do qual Humanidade seja salva.

Diodorus não conseguiu conter outra gargalhada.

- Precisa de peças novas, Sibila? Algo deve ter fritado nestes últimos séculos; não está a fazer nenhum sentido. Que tal chegarmos a um compromisso? Eu vou até Cumae com um grande martelo e parto-te num milhão de fragmentos, uma bem merecida e misericordiosa morte? Aposto que as suas irmãs me iriam agradecer, devem estar envergonhadas com as suas ações. A grande Sibila de Cumae, tomando o lado de um povo bárbaro ao invés dos filhos de Hellas.

- Os meus cálculos não possuem falhas ou erros – Sibila manteve-se firme na sua posição. - Roma vai sobreviver a este conflito, assim como os inevitáveis que se seguiram. Cartago vai ser quebrada, tal como todos os reis e rainhas que dançam sobre o corpo de Alexandre. É isso ou eles falharão em estabelecer uma linha continua de civilização, dando azo a uma nova era de Gelo e Trevas que irá devorar tudo. Eu não tenho duvidas sobre isto; as únicas variáveis que às quais não posso responder são, o destino final dos pilares de luz no Este e Oeste distantes, se estes irão sobreviver ou também acabaram tragados pela noite.

- Eu recuso-me a aceitar isso, Sibila – a face de Diodorus esmoreceu, o sorriso desaparecendo. Ele forçou um sorriso sem calor ou alegria antes de continuar. - Nem que seja pelo quão dramática essa imagem é.

- Diodorus vai também refutar os factos que alimentam as minhas deduções? Não existem alternativas viáveis entre os seus rivais. Se deixados sozinhos, os Púnicos vão regressar aos seus velhos hábitos ou voltar a sua atenção para terríveis mestres. Os Etruscos faz muito que atiraram a sua identidade e união cultural ao vento. O mundo dos herdeiros Gregos estagnou, exceção de bastiões como a Cidade-Nuvem de Siracusa, ninguém cria nada novo. E até esses dedicados às perseguições eruditas sobrevivem apenas devido a caprichos da Fortuna. Preciso sequer de lhe relembrar a si, de todas as pessoas, sobre o Flagelo do Egito?

O seu temperamento incendiado, o pirata atirou a cabeça para o chão.

- Vida debaixo do jugo bárbaro é preferível a destruição? Ambos sabemos bem que vai tudo acabar em tirania e selvajaria. É o teu plano tornar-nos a todos escravos, Sibila?

- Eu não compreendo as suas questões, Diodorus. Estas estão maculadas de emoção, tornando difícil para mim entendê-las. Devo, contudo, dizer, rodeada por estupidez e ignorância é como eu tenho existido por séculos. Se eu consegui aguentar, tenho a certeza que o seu ego também é capaz de lidar com isto.

Pegando na cabeça e fechando no baú, Diodorus levou as mãos à testa enquanto ponderava o seu próximo passo. Uma série de violentos abanões fez o barco tremer, forçando-o a adiar as suas contemplações. Seguido por gritos desesperados, Ammon entrou nos aposentos do capitão.

- Capitão, algo está a trepar a bordo! Tem que estar relacionado com a sua conquista, aquilo não pode querer outra coisa de nós!

Diodorus virou a sua cama, revelando uma espada curva, uma longa harpe. Após hesitar por um momento, pegou no tubo de bronze e escondeu-o nas ruas roupas.

O barco foi novamente abanado, atirando alguns dos marinheiros menos experientes ao longo do porão.

- Ele vem aí. - A Sibila ecoou dentro da cabeça do pirata.

- Quem?

Um longo braço surgiu lentamente a estibordo, seguido de uma rastejante perna. Os movimentos eram inquietantemente ágeis, os membros do intruso aparentemente capazes de dobrar em modos impossíveis para articulações humanas, movendo-se como uma estranha e cinza aranha humanoide.

- O Inimigo.

Um golpe veloz varreu o convés, atirando muitos dos marinheiros que lhe resistiam para a água, seguido imediatamente por uma série de rápidos pulos. O atacante continuava a sacudir o barco, stressando os tripulantes enquanto estes se armavam com espadas e lanças e tentavam rodear a criatura. Diodorus finalmente conseguiu olhar bem para esta. Era um verdadeiro gigante, mas inquietantemente magro e delgado, como se alguém tivesse esticado um ser humano até ao limite. Tinha membros finos, mas longos e uma caveira extremamente deformada. Os seus dentes eram perversos e proeminentes, a sua barba uma massa viva de serpenteantes tentáculos. Grandes olhos negros que pareciam esferas roubadas ao céu noturno olharam em volta, o Grego notando que a criatura tentava cobrir o seu lado direito, onde o seu braço direito repousava queimado e inútil.

- Maldições, é o guardião de Alba Longa. Como é que ele me encontrou? - Diodorus grunhiu entre dentes cerrados.

A criatura continuava a estudar o barco, ignorando os combatentes que se aproximavam de todas as direções, focado num único propósito. Finalmente encontrou Diodorus, urrando com fúria profana e carregando contra ele, espalhando uma pilha de barris no caminho. O Grego enrolou-se no manto, desviando-se facilmente, os seus pés nunca parando de seguir o balançar do barco. Diodorus começou a agarrar e atirar todas as cordas e carga na qual tropeçava, criando obstáculos para o guardião que talvez o atrasassem e criassem uma distância vantajosa entre os dois.

Foi um esforço fútil, a criatura saltando como um malicioso sapo sobre os barris, fazendo a madeira ranger e quebrar, abrindo perigosos buracos ao longo do convés. Diodorus fez a sua harpe girar, a lâmina curvada cortando os músculos da perna esquerda da criatura enquanto o Grego rebolava noutra direção.

Abrandando um pouco e alternando entre a perna que suportava o seu peso, o guardião continuava a aplicar pressão, obrigando Diodorus a lutar defensivamente, desviando-se e bloqueando, nunca conseguindo criar uma oportunidade ou ripostar.

Os olhos de ambos os combatentes cruzaram-se por um breve instante, uma imagem sendo projetada na mente de Diodorus. O Grego, uma mão segurando uma faca ensanguentada e outra erguida aos céus, um homem vestido de púrpura jazendo aos seus pés. O idiota tentava enfiar as suas entranhas no seu ventre, enquanto outro homem em púrpura estava a ser erguido no ar por forças invisíveis, lentamente sufocando.

- Eu estava lá; eu sei o que aconteceu. Onde queres chegar?

Talvez fosse uma mera distração, sem mais ambições para além disso. O braço chamuscado pareceu vibrar com renovada vitalidade, fechando-se num punho e apontando diretamente à cabeça de Diodorus. Uma lança enterrou-se no flanco da criatura, ganhando a Diodorus tempo suficiente para escapar. Correndo até o mastro, o Grego saltou em cima de um caixote e usou o impulso para trepar até meio do pilar de madeira. Adquirindo momento suficiente, saltou para trás, voando por cima do guardião e cravando a sua espada nas suas costas, dilacerando-as até ao pescoço. A aterragem foi difícil o suficiente sem o monstro reagir em dor, girando e pontapeando Diodorus com tamanha violência que este caiu na água.

Agarrado a uma tábua partida, o capitão trepou de volta ao barco, sentindo a cada novo solavanco a aproximação da criatura. O pontapé não foi a única coisa a atingir o Grego; outro assalto mental confrontou-o com os textos roubados e a destruição que o guardião lhes tinha destinado.

- Capitão! - Ammon apareceu no momento certo, agarrando Diodorus enquanto este quase perdia equilíbrio graças ao ataque mental. - Ele é imparável! Quais são as suas ordens?

- Alguma ideia de como lidar com o nosso pequeno amigo, Sibila? - Diodorus pensou, sabendo que a oráculo ainda estava à coca.

- Se há algo que aquela coisa não é, é nossa amiga. Não existe nada que possas fazer para parar o seu avanço, não quando este já decidiu num curso de ação. É como colidir contra uma força da natureza.

- Desculpe as minhas assunções. Eu vejo as coisas deste modo, se dois lados querem a mesma coisa, eu…

- Atenção!

Alguém gritou um aviso atrasado, a criatura pegando num dos tripulantes e atirando o pobre desgraçado contra Diodorus, o capitão mal tendo tempo para agachar-se para evitar ser atingindo; um mero instante mais tarde ouviu os lamentos do homem ao atingir a água. Certo, o guardião queria a relíquia? Diodorus pegou no tubo de bronze e abanou-o na direção do guardião.

- Isto é o que queres, não é? Vieste até aqui por causa disto? Então vem buscá-lo!

A criatura carregou novamente, Diodorus dançando de modo a enfrentar o flanco queimado do guardião; enquanto circulavam em redor um do outro, a criatura fez um gesto para agarrar o Grego. Apesar do seu falhanço, os seus esforços foram o suficiente para encurralar o capitão. Forçado a bloquear os ataques que se seguiram com a espada, um Diodorus desesperado atirou-se para baixo do guardião, deslizando para relativa segurança.

Com um dolorido grito a criatura fez a sua falta de paciência pública. Estalando os braços enquanto estes aparentavam alongar-se mais ainda, trepou até ao topo mastro com duas rápidas investidas. Diodorus olhou para cima, questionando-se o que é que o guardião planeava fazer.

Este saltou.

Mandíbula inferior deslocada, revelando uma extensa e expansível bocarra. O resto do corpo pareceu ser sacudido pelo vento em estranhos ângulos, à medida que a sua voraz boca sugava o astro, tábuas partidas, barris mais leves a armas abandonadas.

Tudo sendo tragado naquele vortex dentado.

- Isto é novidade para mim – a voz mecânica da Sibila apontou.

- Fora! Todos para a água! - Diodorus urrou. - Abandonem barco e nadem o mais longe possível de mim. Abandonem tudo.

A tripulação não o fez repetir a ordem, atirando-se para a água debaixo da guarda vigilante do capitão Grego. Foi com grande dor que Diodorus se juntou aos seus homens, o seu barco sendo completamente desmantelado e engolido. O guardião limitou-se a pairar, lentamente aproximando-se do mar, as ondulações anunciando a sua iminente aproximação.

Foi um Diodorus exausto que chegou à costa, lutando para recuperar o fôlego enquanto se via rodeado pelos seus cansados companheiros.

- Eu disse-vos para se irem embora! Continuem, eu vou distraí-lo enquanto vocês fogem. Eu tenho aquilo que o monstro quer.

- Dê-me a sua relíquia, capitão – Ammon implorou. - Eu posso servir de distração enquanto tu lideras os outros.

Diodorus abanou a cabeça.

- Eu sou o único que o pode atrasar e sobreviver. Além disso, neste momento os homens precisam mais do navegador do que o seu capitão. Dividam-se em dois grupos, um vai para Norte e outro para Sul, tentem encontrar-se com as tripulações do Xenophon e Salaminia.

- Capitão…

- Cartago. Em três semanas – o Grego voltou-se para enfrentar a criatura, no momento em que esta finalmente fechava a bocarra e aterrava em cima dos destroços do que outrora tinha sido o orgulho da sua frota. - Vão!

Com os outros em segurança, Diodorus olhou em volta em busca de terreno alto e agarrou-se à sua espada-foice. O guardião emergiu da água como um enorme tubarão cinzento, não perdendo velocidade à medida que se aproximava do pirata. Diodorus estava prestes a atacá-lo, apertando os olhos; foi então que reparou que os golpes que tinha anteriormente desferido tinham sarado, uma espécie de fumo negro mantendo a pele unida e restaurando a carne à sua suja e pálida cor natural. Diodorus dobrou as pernas, não estando disposto a apostar a sua vida numa investida inútil.

A criatura travou a meio caminho, abrindo a boca e aparentando sufocar devido a algo preso na sua garganta. Após muita luta consegui soltar e cuspir algo bronzeado que rebolou entre as pedras da praia. A cabeça da Sibila acabou por parar aos pés de Diodorus.

- De onde é que tu vens? - o Grego perguntou, apanhado de surpresa.

- Do Submundo, acredite ou não – Sibila apontou. - Diodorus, você não quer ser apanhado por isto.

- Acredito. Odeio esse sítio – Diodorus cerrou os dentes. O guardião tinha recuperado da tribulação, aproximando-se lentamente, mas determinado. - Como é que o mato?

- É impossível. Eles podem apenas ser selados ou atrasados, não destruídos. Eu e as minhas irmãs tentamos todos os métodos que conseguimos pensar, todos falharam – Sibila explicou. - Os feitos das Gentes do Mar não podem ser subestimados. Tal como o conteúdo desse tubo.

O guardião olhou para Diodorus primeiro, depois para a cabeça de bronze na posse de Sibila, de seguida novamente para Diodorus; a sua expressão podia penas ser lida como de absoluta tristeza. O Grego sentiu a sua mente novamente sobre assalto, uma força avassaladora que fez o seu nariz sangrar. Ilhas cobertas de pedra e ferro, um mar recheado de espirais cristalinas. Um céu negro e uma massiva explosão vulcânica, cidades inteiras obliteradas em segundos, pestilência e guerra entre gente envergando estranhas armaduras e bizarras bestas.

- Eu... não compreendo – Diodorus balbuciou. Era um sentimento pouco confortante.

- Não se sinta mal, ninguém espera que o faça – A Sibila interveio. - Ele está a falar comigo.

O guardião sacudiu a cabeça, assumindo uma postura agressiva, mas não atacando. Ao invés disso, palavras num estranho alfabeto sangraram a realidade, dançando em redor de si, borrões vermelhos e negros. Outra onda de imagens mentais, desta vez confrontando Diodorus com o seu ardil, ele disfarçado de escravo na companhia de uma jovem Vestal.

- A sério? Está a tentar fazer-me sentir culpado por a ter abandonado? Ela era um possível Arcani em ascensão, tem alguma ideia dos estragos que eles têm causado pelo mundo fora? Não se importa, pois não?

A criatura não respondeu às provações. Ou talvez o tenha feito do seu modo, enviando uma imagem de si mesma abanando a cabeça em desaprovação.

- Ela não era um Arcani. Ou qualquer outro tipo de Triunfante – Sibila apontou. - Eu tentei falar com ela, ela parece incapaz de me ouvir. Abandonou uma rapariga inocente para morrer e nem sequer tem uma boa razão para o justificar.

- Não me minta, Sibila. Eu senti a sua fagulha divina.

Silêncio da parte da cabeça como se o intelecto por detrás desta estivesse de algum modo ocupado.

- Isto é interessante. Isso sugere que ela seja o membro de outro grupo – esta finalmente acrescentou.

- Corvus? Pensei que todos eles tinham morrido.

- Não pode ser, eu tentei avisá-la sobre o seu truque. Ela não tinha nenhum treino quando a sentiu. Ela é um talento natural e tu presenciaste a sua primeira vez.

A expressão de Diodorus era de pura incredulidade.

- Zeus, Poseidon e todos os deuses do Olimpo. E eu deixei-a morrer sozinha?

O guardião inclinou a cabeça, a sua expressão alternando para uma de incredulidade. Poderia isto que o Grego estava a sentir genuíno remorso?

- Ela vale uma fortuna! Uma Triunfante espontânea e natural sem nenhum vínculo? Têm alguma ideia do quão raros estes são?

O pirata Grego sentiu a acumulada desaprovação da Sibila e da criatura. Um grito anunciou o fim do cessar-fogo, as palavras alienígenas desapareceram à medida que os músculos e tendões explodiam até o dobro do seu tamanho. Uma onda escarlate preencheu o vazio dos seus olhos negro crude. Diodorus ergueu a sua mão direita, desafiando-o a avançar

- Não é o único com truques debaixo da túnica. Vamos dançar?

O guardião avançou, um golpe lateral fazendo o Grego perder o fôlego. Tentando recuperar distância, Diodorus foi apanhado desprevenido quando a barba da criatura se animou e uma dúzia de tentáculos enrolaram-se em redor do braço em que segurava a espada. Sabendo que a luta seria ganha ou perdida neste momento, Diodorus não perdeu mais tempo. Um frasco apareceu de dentro da sua túnica, este sendo quebrado contra a face do inimigo; névoa negra cobriu ambos os atacantes. Os seus movimentos ocultos, Diodorus retirou uma faca da sua sandália e enterrou-a na barriga da criatura múltiplas vezes, fazendo-a pagar o preço da proximidade.

Enquanto o atacante recuava devido à dor, Diodorus deu por si livre. Saltando para trás e tropeçando nas pedras, o Grego recuperou por um momento antes de voltar à dança, desta vez semiencoberto pelo fumo negro. As névoas pareceram tornar-se mais densas ao invés de dispersaram, lentamente assumindo a forma de uma monstruosa serpente enrolada sobre o guardião, apertando-o com cada vez mais força, resistindo à sua fúria desmesurada e recusando a abdicar do abraço.

O Grego depressa agarrou a cabeça de bronze de Sibila e correu o mais rápido que podia. Atrás dele o guardião já se tinha libertado da serpente fumada, avançando em perseguição de Diodorus.

Desviando-se e embaraçosamente abanando a sua haspe na direção da criatura no seu encalço, o capitão olhou de soslaio para o fumo que se desvanecia, dando-lhe de novo forma e propósito. A serpente reformada depressa apanhou os combatentes, circulando enquanto Diodorus a usava simultaneamente como escada para os céus e uma barreira entre eles e os inimigos.

O guardião rosnou e continuou a atacar, não recebendo contra-ataques de Diodorus; este limitava-se a mover-se encavalitado na serpente, erguendo-se cada vez mais alto, até os olhos de ambos estarem ao mesmo nível. Diodorus voltou a lâmina da sua espada-foice para cima, refletindo algo. Uma forma negra e perversa. Com um sorriso, o pirata viu a criatura voltar-se para enfrentar este novo oponente.

Apenas parcialmente serpente, assim o era esta criação de Diodorus, o guardião encontrando-se frente a frente com um torso feminino e uma horrenda face de cabeço serpentino, o denso fumo que a constituía interrompido por duas fendas onde assentavam dois olhos feitos de brilhantes rubis. Olhos que encontraram os do guardião, a sua pálida pele imediatamente escurecendo, os seus movimentos abrandando e a sua bocarra imortalizada numa lufada de surpresa.

Diodorus dispersou o fume e partiu para bem longe, já ouvindo a pedra estalar. Assim que sentiu seguro, dirigiu-se à Sibila.

- Disseste-me que ele era o teu inimigo, no entanto ficou claro para mim que ele está interessado nos seus bárbaros de estimação. O que é que se passou aqui?

- O Diodorus tem que ver as coisas da direção oposta – a voz mecânica corrigiu-o. - Mesmo quando as nossas crenças são diametralmente opostas, somos ambos filhos da Humanidade que querem garantir aos seus pais um futuro decente e reconheceram nesta gente a nossa melhor hipótese de o fazer.

- Eu nunca entenderei porquê, com tantas tribos e gentes pelo mundo vocês escolheram estes descendentes de bandidos e refugiados. São o aborto do mundo.

- Você é um cidadão do mundo, um aventureiro, alguém que conhece as chances de sucesso e a inevitabilidade do falhanço. Você sabe que alguém vai eventualmente falhar, e um destes dia, vai fazê-lo de modo desastroso.

- Ossos do ofício. E da vida – Diodorus encolheu os ombros. - Temos apenas de aprender o que funciona e o que não funciona e seguir em frente.

- Esse é o caminho que razão e lógica ditam. Contudo, existe uma loucura coletiva na raça Romana que os torna incapazes de reconhecer os seus falhanços. Eles nunca se rendem ou abandonam um empreendimento que começaram; quando são destroçados, usam o fogo das suas paixões para se reforjarem em aço. As minhas irmãs podem ter depositado as suas esperanças em Gregos, Kemet e Persas, assumindo que amor por cultura e desejo de compreensão do cosmos deviam ser o principal fator guiando as suas escolhas. Eu, por outro lado, sei quão frustrante a perseguição de saber, verdade, justiça e glória é; como tal, escolhi apostar a longo prazo, escolhendo uma gente que nunca vai desistir de tentar melhorar o seu fado. Persas e Kemet desapareceram entre areias, o mundo Helenístico no seu crepúsculo. Roma, esses homens e mulheres indesejados que acreditam em noções ridículas como Democracia, Lei e Virtude, eles nunca se irão resignar a viver num mundo em que tais coisas não existem – uma pausa. - O Diodorus pode desempenhar um papel crucial no desenvolvimento e maturação desta inesperada gente.

- Poupa-me a propaganda, Sibila. Eu irei vender o tesouro de Numa ao melhor preço que conseguir e depois navegar longe daqui. Nunca mais voltarei a meter os pés nesta selvagem península.

- Eu não peço muito de si. Eles já sabem o suficiente para prosperarem. Eles só precisam de alguém que os ensine como lidar com conhecimento, que expanda os seus horizontes e desbloqueie o seu potencial.

Diodorus sacudiu a cabeça e abriu o tubo, encostando-o à orelha e escutando os estalidos elétricos no seu interior. Fechou-o novamente. O mar chamava por ele. Puxou o braço para trás, apanhando balanço para o arremesso, avançando para parar ao último instante. Voltou a guardar o tubo.

 

*

 

Semanas mais tarde na cidade portuária de Beneventum, um incógnito Diodorus encontrou-se numa taverna fétida. Um grupo chamando-se “os Filhos de Dido” queriam comprar o Livro de Numa, qualquer que fosse o preço. Tudo o que ele tinha que fazer era esperar por um grupo de mercadores para efetuar a troca. Abanando uma taça de vinho barato e com o tubo contendo o seu tesouro em cima da mesa, assim ele esperava.

Três homens de óbvia aparência Púnica entraram no estabelecimento, as suas túnicas púrpuras cobertas por pesados mantos de lã. Diodorus voltou-se para eles e ergueu a sua taça em cumprimento.

Para sua surpresa, os mercadores desapareceram num pestanejar. Temendo traição, olhou em redor da taverna. Apanhou pelo canto do olho um clarão acelerado e voltou-se diretamente para os lugares vazios à sua frente. Sentada à sua mesa estava uma alta mulher, metade do seu corpo meio encoberto por um manto escarlate cujo bordo estava decorado com padrões de estelas. Ela sorriu quando Diodorus reparou que o seu precioso tubo tinha desaparecido.

- É o meu contacto? - O Grego perguntou, incapaz de descortinar a etnia da mulher. Ela definitivamente não pertencia a nenhuma tribo Italiana e os seus traços ligeiramente asiáticos podiam trair uma origem Púnica. Ou talvez grega, uma agente de uma ou outra monarquia. Discretamente, levou a mão ao cabo de uma das suas adagas.

- De certo modo – ela respondeu em grosseiro Latim. - Eu represento outra parte interessada no seu negócio, defensores de um dos poderes regionais e dos seus aliados. Pode ter ouvido falar de nós, somos conhecidos como Corvus.

- Eu não um amigo de Roma, é melhor que se vá embora enquanto pode – Diodorus respondeu, tentando encontrar o melhor ângulo para enfiar uma lâmina entre os olhos da mulher ou encosta-la à sua garganta. - Além disso, tenho dúvidas sobre a sua identidade. Os Corvus foram exterminados até ao último homem.”

- Mas não até à última mulher, aparentemente – por um momento o seu sorriso esmoreceu. - Eu não vou mentir, não somos o que já fomos. Contudo, ouvimos falar muito sobre si e o seu trabalho e estamos impressionados, incluindo as brilhantes recomendações dos nossos aliados. E eu estou inclinada a acreditar que amigos dos nossos amigos são nossos naturais companheiros. O Rei de Pergámo em particular…

- Tal como eu não sou amigo de Roma, eu não sou amigo de nenhum monarca, déspota, tirano ou autocrata – foi a resposta seca de Diodorus. - Esta a desperdiçar o seu e o meu tempo. Devolva-me a minha propriedade. Já.

O tubo apareceu na mão estendida da mulher.

- Apenas estou a mantê-la segura enquanto falamos, existe gente maliciosa à procura disto. Seria desafortunado se eles obtivessem isto – Diodorus agarrou o Livro e depressa o escondeu, a mulher não mostrando nenhum gesto ou intenção de o travar. - Contudo, o nosso grupo acredita que Hermes Trismegistus é a melhor pessoa para manter os Livros de Numa Pompilius seguros.

Diodorus franziu o sobrolho.

- Ora aí está um nome que eu não esperava ouvir tão longe de casa.

- Os seus esforços não foram esquecidos ou ignorados, Magus – a mulher pareceu alegrar-se quando a expressão de Diodorus se tornou uma de surpresa. Ela depositou um trapo de linho ensanguentado em cima da mesa, um inquietante símbolo bordado em amarelo. Um enorme Sol brilhante, inundando tudo com raios solares que se estendiam e terminavam em avarentas mãos. - Em nome de Corvus Optimus Maximus, eu quero agradecer-lhe por tudo o que tem feito para proteger Humanidade ao longo dos anos.

- Aten… - Diodorus murmurou. - É recente? Está de volta?

A mulher acenou de modo concordante.

- Eu podia tentar persuadi-lo a juntar-se aos Corvus, apelando à nossa dedicação em tornar os ideais Romanos em realidade ou que também lutamos pela restauração da Liberdade a todas as gentes, ou um outro exercício de retórica. Contudo, para bem ou para mau, de momento eu sou aquela que toma todas as decisões e esse não é o meu estilo de fazer as coisas – a mulher puxou o seu manto para trás, revelando os seus profundos olhos e cabelo loiro. - Todas essas coisas são ilusões, distrações que escondem a simples realidade. Eu fui investida com o dever de proteger a República. O seu autodeclarado objetivo de proteger a Humanidade. Qualquer ameaça que coloque em perigo “toda a Humanidade” inclui esta nossa Coisa Pública que tento proteger. Eu não estou aqui para te recrutar ou comprar os meus serviços.

- Custa a crer, considerando o que sabe sobre mim – Diodorus respondeu com um sorriso confiante. - Além disso, você está a parte do quão bom eu sou. O que quer então de mim?

- Eu quero ajudá-lo – a mulher voltou a puxar o capuz para cima, deixando apenas o seu largo e esperançoso sorriso visível. - Todos os meus recursos estão à sua disposição. Considere os Corvus ao seu serviço.

Diodorus rasgou o Sol bordado em dois.

- Vamos lá salvar o mundo então.