Vingador do Aventino, Parte II

Acordei rodeado por trevas. Por um momento pensei estar na casa de Bassus, ainda sendo de noite ninguém se atrevendo a trazer-me uma luz. Apalpando o chão, reparei no quão fria e saliente era a pedra. Continuando cegamente a exploração, finalmente apercebi-me do quão irregular, áspera e claramente estranha ao artifício humano esta era. Alguma espécie de túnel. Olhos semicerrados, apanhei um vislumbre de uma pálida luz.

A fonte de iluminação foi-me revelada como sendo um círculo de lanternas em redor de uma graciosa mulher. Entre adolescência e maturidade, ela vestia e movia-se de forma elegante, afastando o seu fantástico cabelo enquanto debicava uma romã, aborrecida. Finalmente reparando na minha presença, imediatamente assumiu uma postura mais digna, cumprimentando-me.

- Salve, meu bom homem – apesar do seu tom gentil, os cantos dos seus olhos e boca traiam claramente desapontamento. – Imploro pelo seu perdão, pois eu não sei o que lhe dizer. É possível, talvez, que eu seja a responsável pela sua chegada a este lugar? É terrivelmente embaraçoso, pois foi a outro que eu convoquei, outro por qual eu espero. Se eu sou aquela responsável por este incomodo, por favor, deixe-me compensá-lo de algum modo.

Eu aproximei-me das luzes, finalmente apercebendo-me do quão frio eu estava e quanto ansiava por calor. A jovem manteve a sua cabeça erguida, enganosamente calma e esperando por uma resposta.

- Não, minha senhora, eu não penso que seja de qualquer modo responsável – eu murmurei, esfregando as mãos umas contra as outras. - Eu tenho feito tantas más decisões nestes últimos dias que não serei surpreendido se descobrir que uma delas me colocou nesta situação.

O sorriso que que ela ofereceu em resposta era triste e conhecedor.

- Eu compreendo – ela seguiu o meu olhar, inconscientemente focado na fruta que ela mostrava tanta relutância em comer. A jovem ofereceu-me metade da romã. Eu não estava apenas gelado, aparentemente também estava esfomeado. - Contudo, partilhar uma leve refeição consigo irá oferecer-me alguma paz de mente.

Eu não hesitei, aceitando e devorando a oferta. O meu estômago ainda desejava sustento e as ténues labaredas pouca faziam para me apaziguar; após tentar em vão preencher o vazio dentro de mim, aceitei que o precisava não era de algo para matar fome ou frio.

- Eu preciso de regressar a casa – declarei numa única exalação. - Eu não devia estar aqui.

A jovem concordou com um aceno.

- As vozes podem ser silenciosas, mas silêncio imposto não as acalma. Faz demasiado tempo que um mortal se aventura aqui; ninguém o pode ajudar a encontrar o caminho de retorno – uma tensa pausa. - Eu nem sei se tal feito é possível.

- Ninguém se aventura aqui? Nem a pessoa por qual espera? Talvez esta me possa ajudar.

- Talvez.

A situação estava a melhorar, contudo, eu não estava disposto a ficar sentado à espera, por mais acolhedora que fosse a companhia.

- Onde é que irei parar se seguir aquele túnel?

- A algum lugar e a lugar nenhum, apesar do meu coração de dizer que encontrará um local familiar. Podes encontrar dois tipos de ajudas: furiosas vozes telúricas enlouquecidas por ninguém os escutar, ou augustas e celestiais autoridades que dignam apenas a responder a lamentações patrícias.

- Obviamente – isto parecia-me terrivelmente familiar, tal como era em casa. - Apenas um patrício pode dirigir-se aos deuses sem causar ofensa.

Porque é que eu disse aquilo? Nunca compreendi, mas algo que eu senti levou-me a estes assuntos e conclusões. Talvez seja isto que eles chamam de experiência espiritual. Recuando alguns passos, perguntei à jovem uma nova questão.

- É algum tipo de deusa?

Ela sorriu.

- Serei? - um brilho jocoso no seu olhar. - Eu não sei como posso responder a essa pergunta, contudo, posso garantir-lhe uma coisa: não me considero ofendida.

Olhei para o túnel. Este parecia chamar por mim.

- Sinto que não tenho grande escolha – o seu silêncio confirmou que ela também pensava o mesmo. - Vou lançar a minha sorte. Vale.

- Vale, Marcus Considius. Lembra-te que para voltares a casa, primeiro tens que voltar a casa. Não existe falta de distrações aqui em baixo; mantém-te leal ao teu propósito aconteça o que acontecer.

Balelas crípticas.

Segui através dos frios corredores. Eu continuo sem saber que coisas se moviam entre as sombras e não fiz tensões de descobrir. O que quer que fosse capaz de soltar aqueles estalidos e lamurias era demasiado insano, degenerado e violento para me dar algo para além de uma horrível morte. Mesmo que eu estivesse seguro que estava já morto ou no mínimo preso num coma, os meus instintos gritavam para ter cuidado; este tipo de túnel não podia existir em algum lugar próximo de Roma, alguém já o teria entupido com excremento.

Falando em Roma, encontrei algures que só podia ser algo que tencionava ser Roma. Novamente pensei e cheguei a estranhas conclusões, ignorando racionalidade, limitando-me a sentir que aquilo que me rodeava era suposto representar Roma. Contudo, era uma Roma a que eu não podia chamar de lar. As colinas demasiado altivas, o leito do rio demasiado largo, a lua demasiado brilhante. O que devia ser o Palatinato estava recheado de templos e o Fórum não tinha uma única loja, um bairro de mármore ao invés de tijolo, palidez e esterilidade ao invés da cor e energia do centro do mundo romano.

Senti uma atração irresistível, dando por mim no meio de ruas simultaneamente vazias e atestadas. Precisei de me concentrar, finalmente conseguindo ver as figuras translucidas em redor de mim, efetuando pantominas da vida quotidiana, empurrando-se uns aos outros numa corrida para lado nenhum. Estava entre sombras e lémures, mas ao mesmo tempo era como se nunca tivesse abandonado a Urbe.

Decidi seguir o conselho da estranha mulher e tentei voltar para casa; atravessando uma série de ruas, encontrei o caminho para o que se fazia passar pelo Aventino. Mesmo na esterilidade do Submundo, o sítio continuava encoberto, claustrofóbico e nauseabundo. Lidando com caminhos e edifícios que me eram familiares, reparei em detalhes que me tinham passado despercebidos enquanto lidava com as estradas mais largas e bem-construídas habitações: ao invés de tijolos, lápides eram usadas; ossos humanos mais ou menos moídos eram a argamassa; os graffiti e maldições gatafunhados nas paredes eram pintados em sangue que ainda escorria. Isto era uma Roma, sem dúvida, mas uma Roma suspensa entre uma mórbida necrópole e um sonho.

A minha loja estava exatamente no sítio onde esperava encontrá-la, muito mais intensa e real do que as da vizinhança. Encostei a minha face contra a parede. Conseguia ouvir risos e Camilla, o afiar de tesouras de ferro e a inocente conversa sobre urbanas banalidades entre barbeiro e cliente. Estava de volta a casa. Sem esperar mais um momento, tentei entrar e regressar àquilo que tinha abandonado. Acabei por descobrir que o facto era impossível para mim. Algo me mantinha preso no limiar. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia atravessar. Era como se uma âncora estivesse enrolada à minha cinta.

Olhei em volta, confuso. Sombras rodeavam-me, de um aspeto pouco amigável. Estas tinham expressões semelhantes às dos meus amigos do Aventino, o casual ar de quem estava habituado a ter longas conversas com os punhos ao invés de dar azo ao Latim. Acenando discretamente na sua direção, concentrei-me a tentar mais uma vez atravessar o limiar. Arfando ar tépido, finalmente reparei nas névoas negras que aderiam a mim, vestindo-me como uma toga de sombras vivas. Eu podia atravessar – eu não pertenço a este mundo, afinal – contudo, lémures não podiam escapar às minhas cavalitas. Como é que eu podia explicar-lhes isso? Tentei agarras as névoas e apanhar as sombras, estas escapando-me entre os dedos, escorregadias como enguias e muito mais determinadas. Nelas conseguia reconhecer faces angustiadas, contorcionadas por dor e implorando o meu favor.

À medida que o tempo avançou, mais e mais sombras rodearam-me, expressões similares nas suas não-faces. Eu hesitei. Eu era um Considia; vivos ou mortos, as gentes do Aventino são a minha gente. Eu lembrei-me da jovem que foi tão amigável e cortês na rejeição da minha pessoa; ela esperava um patrício. Eu não tinha encontrado ninguém das elites, mesmo com uma brilhante criatura esperando. Se ela estava sozinha, que esperança tinham estes lémures? Como se algum arrogante patrício visitasse as entranhas de Roma ou o Aventino. Estes desesperados espectros gritavam em silêncio, ansiosos por voltar a falar.

Apenas um plebeu lhes podia restituir voz.

- Está tudo bem – ergui os meus braços numa tentativa de acalmar as sombras. - Vocês precisam de um representante? Eu aceito o papel. Eu assegurarei que vocês não sejam esquecidos.

Os lémures caíram sobre mim, arrastando-me numa torrente cinza e negra. Trepando na direção do Fórum, milhões de espectros, séculos de Romanos silenciados esperando por mim. As sombras largaram-se sobre uma laje negra – uma gigantesca réplica da Lapis Niger. Ancestrais e selvagens espíritos emergiram da laje, tão velhos que mal pareciam humanos, muito menos Romanos. De algum modo os espetros produziram um banco – o assento usado por um Tribuno. Os olhares apreensivos que recaíram sobre mim eram bastante claros: o comité tinha-se reunido e na ausência de outros candidatos, eu tinha sido eleito para a posição. Era a minha vez de aceitar: ou tornar-me o Tribuno de Sombras e Lémures ou enfrentar as consequências.

Sentei-me no banco.

Poderosos lémures emergiram da Curia, as sombras de Senadores. O seu líder era um espetral cônsul com uma coroa triunfante que brilhava com a luz de um Sol invisível, escoltado por um monstruoso e gigantesco corvo com olhos de rubis.

Eu conhecia desaprovação patrícia quando a via, os Senadores e o Cônsul quase explodindo de contido desagrado. Fazia todo o sentido. Porque é que um Senado de Sombras iria ficar satisfeito com a existência de um Tribuno Infernal? Os Tribunos dos vivos não eram mais amados pelos magistrados e senadores, porque haviam os representantes dos comuns mortos esperar diferente tratamento?

Ao contrário da verdadeira Roma, eu não estava seguro se o meu estatuto como Tribuno me tornava sacrossanto; felizmente plebeus mortos continuam a ser bons a ler a situação e arrastaram-me na direção dos limites da cidade.

- Não, levem-me de volta à minha loja – eu implorei, sendo ignorado. Atravessando o limiar de Roma e enviando-me para um estranho exílio, os lémures abandonaram-me.

Todos exceto um.

Das muralhas da Roma das Sombras começaram a suar névoas, estas lentamente materializando-se sobre a forma de um gigantesco rei-guerreiro, coroado com um altivo par de cornos de veado e vestindo as peles de lobos. O mega lémure estudou-me por um longo momento e estendeu a sua enorme mão, tentando agarrar-me. Corri, desespero guiando a minha fuga, o meu corpo parando após alguns passos. Recusava a mover-se, paralisado por emissões espectrais. Fechando os olhos, pensei em Camilla enquanto os dedos se apertavam em redor de mim.

 

 

*

 

Eu inspirei profundamente, o cheiro de brisa marítima e solo molhado atingindo-me antes de qualquer outra sensação; clarões e o som de chuva embatendo contra o chão seguiram-se. De uma poça do meu próprio sangue, por túneis assombrados e agora num porto no meio de uma tempestade. Eu não reconhecia o local e mal conseguia ver um palmo à frente do meu nariz, escuridão, sombras e água distorcendo a minha visão.

Espera aí. Sombras, neste negrume?

Ergui a minha de mão de modo a tocar no meu nariz, reparando que os meus braços e face estavam cobertos por sombras vivas que se moviam por conta própria, ignorando as imposições da iluminação ou da minha vontade. Eu pestanejei violentamente, confirmando que não era um truque da minha mente. As vozes na minha cabeça eram definitivamente reais o suficiente para me preocupar, pois claramente verbalizavam pensamentos que não eram os meus, mas sim da coletiva consciência das sombras manifestadas.

E não só. Também provinham detrás de mim.

Voltei-me, confuso. Aparentemente eu tinha trazido um pouco do Submundo comigo, acarretando com sombras vivas a companhia de dois génios. Um era uma bizarra figura, dragão, águia e mulher; o outro era uma orgulhosa mulher alada, carregando um chicote e uma cruel adaga pingando o que só podia ser veneno.

- Minha doce Adrasteia, olha-me para isto – a mulher águia-dragão estava deleitada, assobiando dentro da minha mente. - O grande vingador treme na nossa presença.

- Deves estar enganada, querida Poenia – a austera divindade corrigiu a sua companheira. - Que tipo de cliente teme o seu patrono?

- Um cliente esperto que vale o seu sal – rosnei entre dentes apertados, tomado por uma repulsa natural.

- Não podemos desejar algo mais – Poenia declarou e Adrasteia concordou com um sereno aceno. - Um cliente sem nada na cabeça não serve os nossos propósitos. Não, não, não, do que é que estamos sequer a falar? Estamos aqui como patronos, exigindo os serviços do nosso cliente e invocando o juramento e oferendas que é esperado da nossa parte. Esta relação só pode funcionar se ambos os lados cumprirem os seus deveres.

Olhei pelas duas, incrédulo. O que é que tinha acontecido à minha caótica, mas simples vida?

- Que seja feito – Adastreia fez o chicote estalar com a intensidade de um trovão. - Com um toque pessoal.

As figuras desaparecem tão subitamente como tinham surgido, deixam-me sozinho com sérias dúvidas sobre a minha sanidade. Senti as sombras a puxarem-me pelo pescoço, confrontando-me com algo que decorria no porto.

No meio da estranheza de uma multidão estrangeira, reconheci uma face familiar e Romana; a fronha nauseante do ofegante Titus Annius descia de um dos barcos, seguido por uma escolta de gladiadores e rufiões.

O meu coração exaltou-se, as esperanças alimentando-o. Finalmente ia ter algumas respostas, acompanhadas por deliciosa vingança.

Eu nem sequer estava plenamente consciente de como me movia, tão suave e determinado, quase como se planasse sobre o chão. As minhas pernas não se locomoviam por si mesmas, as sombras vivas formando tentáculos que me arrastavam. Eu foquei a minha mente em controlá-los, o meu corpo inclinando-se enquanto eu era transportado, serpenteando como a mais bizarra das serpentes sobre as estradas enlameadas.

Titus Annius não viajava com pouca bagagem; miserável como um porco à chuva, até encharcado ele insistia em estar presente enquanto os escravos descarregavam os seus bens – ou para ser mais preciso, os bens que ele tinha roubado às gentes de Roma. O meu instinto inicial foi saltar em cima dele e esmurrar a sua boca até ele contar-me a verdade sobre Camilla; os espectros nas sombras tinham outras ideias, voltando a minha cabeça na direção da água.

Enrolando-me numa esfera protetora, as sombras levaram-me ao mar. Comecei a agitar os meus braços em pânico, tentando nadar de volta à superfície e evitar afogar-me; os espetros do Submundo opuseram-se aos meus esforços, arrastando-me cada vez mais e mais profundamente, na direção do casco do barco. Foi com grande alívio que constatei que de algum modo o ectoplasma que me cobri permitia-me respirar.

Olhando para cima consegui destingir apenas figuras distorcidas contra o ocasional clarão de um relâmpago, ainda ocupadas a descarregar. Concentrei toda a minha força de vontade em esculpir as sombras, entrelaçando-as num longo e forte filamento, estendendo-o na direção da superfície. Desajeitado e às cegas, apalpei sem sentir algo através deste estranho e incorpóreo apêndice. Pouco a pouco ganhei terreno e acreditei estar próximo de um dos escravos; confiando na minha avaliação, puxei o tentáculo de volta.

Um pobre escravo foi arrastado para a água, caindo e barafustando no seu pânico. Aquilo que ele carregava, um pesado baú, começou a escorregar e ameaçava segui-lo numa descida molhada. Gritos e ordens, todos largando tudo para tentarem salvar os tesouros do usurário.

Eu atravessei a linha d’água como um predador esfaimado, abanando o barco e saltando sobre escravos e gladiadores. Titus estava isolado, apenas com dois guarda-costas ao seu lado. Fui surpreendido por quanto os espetros ansiavam por violência, as sombras evadindo e tentando desarmar os combatentes, deixando o porquinho todo para mim. Apertando os meus dedos, puxei o braço para trás e enterrei o meu punho na sua barriga. Foi satisfatório, mas eu precisava de muito mais, descarregando toda minha frustração em Annius, apenas parando quando ele caiu no chão incapaz de respirar. Os membros da sua escolta tinham resgatado o baú e começavam a reagir. Sentindo que precisava de alguma privacidade, enrolei o usurário nas minhas sombras e trouxe-o comigo enquanto trepava o topo de casas e armazéns.

Foi no telhado de um templo a uma divindade desconhecida que o libertei. Não existia nenhum homem em Titus Annius, apenas uma bola de gordura e vergonha, gemendo e chorando, as suas caras roupas manchadas com o seu próprio excremento. Ergui uma mão para a minha face enquanto a outra o segurava, revelando a minha face. Ele atreveu-se a olhar-me nos olhos, timidamente arrependendo-se, abanando como se tivesse acabado de ver um fantasma.

- Onde está a minha mulher? Onde está Camilla?

As pupilas dos seus olhos vidrados dilataram.

- O barbeiro? Como… - ele balbuciou, finalmente prostrando-se à minha frente. - Eu juro a Minerva e Quintius que esta não foi uma ideia minha. Eu quero que as pessoas se endividem e que me paguem! Eles obrigaram-me a fazê-lo, eles queriam as propriedades e não queriam saber do dinheiro. Todos aqueles que podiam inspirar os outros plebeus a resistirem tinham que ser eliminados. Por favor, peço-te, poupa-me e eu conto-te tudo o que sei!

- Onde. Está. A. Minha. Mulher.

Titus Annius abriu a sua boca, mas não emitiu nenhum som. Algo emergiu pela sua nuca, algo translucido, cinzento e escarlate. Não.

Não. Não.

Uma lança nascida das sombras tinha morto Titus Annius. Eu matei o único cobarde da conspiração que preferiria falar ao invés de morrer com dignidade e proteger os interesses dos seus companheiros e superiores. Precisamente no momento em que ele confirmou que, de facto, existia uma conspiração. Não eram apenas rumores ou paranoia. Alguém queria destruir o Aventino.

Tentei manter os espetros sobre controlo, eles já tinham causado demasiado estragos. A adrenalina e a sede de sangue tornaram-nos demasiado teimosos, fazendo-os rejeitar a minha vontade, escavando um buraco na cúpula, outra em frente do altar sacrificial e por fim um sobre a cave nua nas profundezas sagradas.

Enquanto era arrastado para o Submundo, uma voz ecoou na minha cabeça.

- A nossa parte do acordo foi cumprida. Agora é a tua vez de provar o valor da tua palavra, Tribuno.

 

*

 

O fedor deixou-me claro que tinha regressado a Roma – a verdadeira e crua Roma. As sombras tinham viajado dentro de mim, mas não permaneceram na minha companhia por muito tempo. Eles dispersaram-se, curiosos por explorar a Roma dos vivos; eu não era o único que ansiava pelo meu lar. É difícil pensar nos meus infernais capatazes como indivíduos com preocupações, personalidades e necessidades, apesar de ser cada vez mais aparente que a sua morte não alterou isso. Eles ainda são cidadãos Romanos, com memórias e vínculos à Urbe.

Eles continuavam ancorados em mim, deambulando enquanto eu fazia alguma exploração por mim mesmo.

Era de noite, contudo eu conhecia estas vielas como os calos da minha mão, confirmando que eu tinha regressado ao Aventino. Procurei por uma fonte de iluminação, guiado por traços de fumo e o cheio de azeite queimado. Dei por mim numa clareira coberta de entulho, criada pela demolição de várias casas. Alguém tinha coberto as poucas paredes que restavam com grafitti e, com muito custo e sacrifício, espalhado candeias de azeites, assegurando que a luz assinalava várias placas de chumbo e pedra.

Cheios de erros gramaticais, as placas representando os sentimentos das gentes do Aventino, coalescendo numa forma física. A fúria contra os patrícios e o Senado por permitirem estas catástrofes, o impotente ciclo de responder violência com violência, a traição da solidariedade cívica em nome de avaro lucro, a confusão de perder tudo o que era familiar e caro, o medo de convidar retribuição divina, pestilência, fome e morte.

Amuar não fazia parte da natureza Romana; aquelas placas invocavam maldições, justiça e retribuição, prometendo terríveis fados aos criminosos e a reclamação de Roma das mãos daqueles que a tentavam dividir.

Aqueles que não tinham mais nada para oferecer ofereceram tudo o que tinha, clamando pela assistência dos deuses infernais. Uma extensa lista de nomes estava espalhada pelas placas de maldições, escumalha que tinha escapado justiça mortal e que continuavam a roer o espírito humano. Eu lembrei-me dos desesperados espíritos de Lémuria, espetros que estavam em situações tão sombrias ou piores que os tormentos sofridos pelos seus descendentes; almas perdidas tão limitadas nas suas opções que me tinham escolhido a mim, entre todos os plebeus em Roma, para ser o seu Tribuno, a sua voz.

Todas estas maldições. Todas estas oferendas. Para quê?

Nenhuma ajuda vai emergir do Submundo.

A não ser que eu seja essa ajuda.

Chamei de volta as sombras e lémures, comprimindo-os tão próximos de mim que estes moldaram-se sobre a minha forma, um uniforme vivo que me cobria de sussurros e trevas. Eu levantei o meu braço direito, as placas de chumbo dobrando-se, torcendo e atraindo a atenção dos meus aliados espetrais. Uma legião de vontades assimilou a informação nelas contidas, tornando-se um com as maldições, as palavras reforjadas numa armadura carregada com promessas de censura e vingança.

Tinha apenas começado com Titus Annius.

Qual era o próximo nome na lista?