Lobo e Touro

Um cavalo galopava gentilmente ao longo de uma mal tratada estrada, guiado pelos calcanhares de um hábil cavaleiro. Tristes campos rodeavam homem e besta, testemunhas silenciosas do duplo flagelo de guerra e depopulação. Estes eram os ossos esquecidos do Touro, onde nem os Lobos se aventuravam.

A nada, verde ou dourado foi permitido repousar no solo; colhido até ao castanho e enviado para a frente. A seguir ao grão, foi a vez dos Homens partirem desta terra, todo e qualquer combatente capaz essencial para travar o Terror Gaulês. Parando por um momento para ajeitar o seu largo chapéu pastoral, o cavaleiro perguntou-se quantos destes auxilii voltariam a casa e quem os iria receber quando regressassem; esquecidos eram aqueles que pereciam na frente civil, abdicando das suas vidas juntamente com os mantimentos invernais. Tudo para manter as tropas a lutar por mais alguns dias.

Graças à devoção da sua montada, o cavaleiro depressa se encontrou ladeado por diferentes campos. Estes não tinham sido abandonados devido à guerra ou perdido os seus agricultores para as necessidades do conflito; por todo o lado eram visíveis os sinais de negligência, plantações fora de época apodrecendo, marcas de ferramentas desadequadas, solo poeirento erodido por anos de irrigações descuidadas. Incompetência arruinou estas terras. Quem eram estas gentes, estes miseráveis administradores?

Para aprender mais sobre estes, o cavaleiro forçou o seu cavalo a parar e desmontou. Brincou com a lança nas suas alforjas, dedos dançando ao longo do cabo enquanto perscrutava os sombrios horizontes. Confiando em Fortuna e outros deuses, o cavaleiro sacudiu o pó da sua gasta túnica antes de se prostrar sobre os trilhos que atravessavam a região.

Dejetos de coelho, ausência de pegadas ou marcas de rodas, tudo isto constituía uma visão inquietante. Nem sequer estavam presentes os típicos sinais de cabras deambulantes ou aventureiras. Quem quer que fosse que vivesse aqui tinha desistido, largando qualquer tentativa de tratar da terra ou descobrir os seus mistérios.

- Parece que eles encontraram a terra frígida face às carícias dos seus polegares. - O cavaleiro concluiu. - Esperariam eles que esta fosse mais amena à semente humana? Que desarmonioso casamento de espíritos, temo só de pensar nas crianças de tal união.

As suas contemplações foram interrompidas pelo relincho do seu cavalo, a besta queixando-se enquanto remexia o chão com o focinho, onde encontrava apenas erva fraca e seca.

- Paciência – o homem sussurrou enquanto acariciava a sua crina. - Não existe nada para ti aqui, não existe nada aqui para ninguém.

O temperamento do cavalo não era promissor e este depressa voltou a queixar-se. O homem ergueu-se, alinhou a sua palma esquerda com os olhos, investigando o que o rodeava. Uma melodia espectral assombrou-o, anunciando a aproximação de alguém; era simples, repetitiva e carente em criatividade. As mesmas notas, presas umas às outras.

Acalmando a sua besta com leves palmadas no lombo, o cavaleiro tomou as rédeas e guiou-o, caminhando lado a lado numa marcha aparentemente relaxada. O músico fez-se conhecer, um homem alto e calvo que soprava uma flauta siringe, escoltado por dois companheiros: um jovem e esfomeado, o outro velho e prestes a cair morto. O seu curioso aspeto bucólico contrastava com os pedaços de armadura gasta pendurados sobre as suas roupas rasgadas e corpos sujos; foices e ancinhos quebrados e aguçados em cruéis armas improvisavas, publicitavam a sua mudança de vida.

O cavaleiro desmontado baixou a aba do seu chapéu, escondendo a sua face em sombras, continuando em frente sem quebrar o passo. À medida que o trio se aproximava, o medo que o cavalo emanava tornou-se praticamente palpável. Os três homens pararam à sua frente, bloqueando o seu caminho. A respiração do cavaleiro abrandou, reduzida a pensativas e pensativas lufadas, os seus músculos faciais relaxando com estoica serenidade, a sua postura alerta contra qualquer tentativa de o rodear.

- Salve – o mais novo cumprimentou. - Este é um belo cavalo que tem aqui. O que o trás cá, a estas terras esquecidas por Ceres?

O cavalo relinchou novamente, exigindo ser apaziguado com mais carícias. Foi com deleite que o trio estudou o cavaleiro enquanto este cuidava da besta, os seus olhos focando-se sobre as ligaduras cheias de sangue seco que cobriram a maioria do seu peito e braço esquerdo.

- Salve – o cavaleiro finalmente respondeu à saudação, o seu tom de voz calmo e confiante. - Temo que o propósito que me traz cá diz respeito apenas a mim e ao meu mestre.

O velhote franziu o sobrolho enquanto o flautista continuou a estudar o cavaleiro.

- Um escravo? Com este porte? Deixa-me chateado.

Silêncio.

- Se há algo que eu não suporto é falta de respeito. Pensas que és melhor do que nós, escravo? Apenas porque o teu mestre é rico e pode dar-se ao luxo de te confiar um cavalo? Tal como ele somos homens livres, não merecemos o mesmo grau de deferência?

O cavaleiro soltou um suspiro exasperado, mostrando uma falha na sua armadura de dignidade.

- Estamos a aborrecê-lo, escravo?

- Quem eu sirvo não tem igual neste mundo. Eu carrego a sua mensagem para os mordomos de Italia e as suas gentes.

- Nós não habitamos nestas terras? - O velhote perguntou retoricamente. - Não somos os seus mordomos? Talvez tal mensagem se destine a nós. Já pensaste nisso?

O escravo inclinou a sua cabeça ligeiramente, como se respondesse à questão apontando para o miserável estado dos campos.

- Não pode culpar-nos por isto! Esta terra rejeita-nos como um cavalo ou esposa selvagem. Existe mais sal do que terra neste solo e as poucas parcelas férteis são depressa encobertas por ervas e espinhos daninhos que envenenam qualquer homem ou animal que as tentem comer. Nem sequer as cabras se dignam a chamar a este local de lar.

Isto fez o cavaleiro ponderar, erguendo queixo e chapéu, revelando a sua juventude e as cicatrizes que maculavam a sua face barbeada.

- Tenho muita pena que seja assim. Contudo…

- Contudo nada. Dê-nos o seu cavalo e roupas, escravo, assim como tudo o que possa ter escondido nessas alforjas – o jovem assaltante interrompeu, a sua paciência finita. - Isto servirá de lição ao seu mestre, por não enviar uma escolta adequada e por não disciplinar os seus escravos. Lembra-te de quem sangra e sua para te manter gordo e seguro! Se fores rápido a prostrar-te e implorar pelo nosso perdão, pode ser que me sinta generoso o suficiente para levar a tua mensagem ao municipium mais próximo.

Enquanto o outro falava, o cavaleiro agiu, rodando sobre si mesmo e chocando o trio. Eles brandiram as suas armas, atingindo o ar enquanto tentavam travá-lo; os esforços depressa se revelarem fúteis à medida que o cavaleiro fazia a sua lança saltar, bloqueando ataques enquanto guiava a ponta com a sua mão ferida. Cheiro férreo invadiu as narinas dos presentes.

Pinho e aço descreveram um aterrador arco, forçando o trio a separar-se, tentando flanquear o escravo e explorar os seus pontos cegos. Era algo mais fácil de dizer do que fazer, a haste girando a alta velocidade entre as suas mãos, rodando de ângulos cuidadosamente escondidos, aparentando desaparecer por preciosos segundos apenas para voltar ao contra-ataque. O atacante mais velho possuía mais experiência que os seus dois companheiros, sendo capaz de desferir golpes traiçoeiros de ancinho que nunca falhavam em bater na lança, forçando o cavaleiro a abrandar e progressivamente cansando-o, esperando criar uma oportunidade.

Tendo identificado o mais perigoso dos inimigos, o escravo espancou o cavalo, forçando-o a erguer-se nas patas traseiras, ameaçando o trio com os seus cascos. Aproveitando o crucial momento de distração, o cavaleiro disparou na direção do flautista, descarregando uma torrente de golpes; ele tentou mantê-lo à distância com golpes de fúria assustada, rasgando a túnica mas falhando em dilacerar carne.

O escravo foi bem mais eficiente, cada golpe custando algo, terminando com a lança enterrada na perna do flautista. Enquanto este uivava de dor, uma faca escondida foi revelada e enterrada na garganta do fraco músico.

Assumindo que o cavaleiro tinha baixado a sua guarda, o mais jovem dos atacantes apressou-se a tentar apunhalá-lo pelas costas. O seu inimigo voltando-se com uma velocidade surpreendente, foi presenteado com uma faca arremessada aos seus rins, forçando-o a recuar arrependido pela sua precipitada escolha.

O cavaleiro conseguia sentir o sangue a correr-lhe nas veias, marchando ao paço da sua pulsação acelerada, a sua respiração dolorosa e árdua. Não bastava deixá-lo fugir; tinha que acabar isto aqui e agora.

Ele assobiou, o seu cavalo respondendo ao chamamento, montando com um salto e forçando galope com apertos de calcanhar. Braço estendido, lança alinhada, o escravo apertou os olhos, sentindo o impulso e balanço. O jovem olhou para trás, a sua face distorcida por horror ao aperceber-se do que estava prestes a acontecer.

Um som molhado quando ponta de lança encontrou caveira, projetando o infeliz assaltante um metro ou assim. O escravo seguiu em frente, não olhando para trás.

Restava apenas o velhote.

Olhares cruzaram-se, examinando-se um ao outro. Escravo desmontou; o veterano assumiu uma postura defensiva. O escravo encolheu os ombros, recuperando a lança com um puxão. O velhote manteve a distância, tentando manter o oponente à distância do ancinho. O escravo limitou-se a atirar a lança com força inumana, fixando o velhote contra o chão.

Com o cavalo seguindo atrás dele, o cavaleiro escravo aproximou-se do ferido veterano. Era peculiar o quanto tão pequena distância pareceu distorcer-se, esticada num infinito castanho e escarlate, adrenalina desaparecendo e deixando-o demasiado consciente das suas ações, os frutos amargos do seu excesso de zelo e brutalidade.

E por um momento perdeu-se. Já não estava nas terras do Touro. De volta ao covil do Lobo.

Trabalhando numa fria e húmida cela, a luz apenas a suficiente para as suas tarefas. E a mulher; alta como nenhuma outra. Negra, dourada e escarlate. Estendendo-lhe uma mão enrolada em corda e cabedal. Uma mão e um sorriso.

- Estou mais do que impressionada. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, encontrou um modo de continuar a servir a República – ela relatou-lhe, o seu Latim pouco polido e coberto de tiques plebeus. Apesar disso as suas palavras ainda lhe ressoavam mais doces do que as de qualquer patrício. - O mundo moveu-se para além de si, Sextus. Ninguém espera nada de si, ninguém espera que dê mais pelo Senado e Gentes. Já entregou tudo o que é. Podia ter deixado que as águas do Lethe o levassem, apreciando o direito de ser esquecido. Mas não é conforto nenhum, pois não? Não, atormenta-o. Não consegue lidar com o fato de ninguém contar consigo. Você precisa de se sentir necessário.

Os seus olhos recaíram sobre a pilha de documentos que o escravo tinha de auditar antes da madrugada. Era um serviço cívico, por mais súbito e pouco atraente que fosse.

- Eu não o vou insultar oferecendo-lhe liberdade – a mulher coberta de vermelho continuou. - Eu ofereço-lhe a possibilidade de se tornar alguém que possa proteger o Senado e as Gentes; talvez nessa altura você encontre verdadeira liberdade ou ao menos contentamento com a sua existência.

Ela atirou uma pesada bolsa para cima da pilha de pergaminhos. Esta abriu-se, revelando discos prateados.

- Não é o único com dívidas a saldar. Quem melhor para repagar as dívidas de Roma? Apague o débito, salde o nosso futuro.

O escravo estava de volta ao campo maltratado, lança nas mãos, lança pressionada contra o pescoço do velhote derrotado. Este murmurou algo, tentando chamar a atenção do cavaleiro.

- Mais alto.

- Cis romanus sum.

O cavaleiro colocou a lança de lado.

- Talvez tivesse sido mais sensato começar desse modo o nosso diálogo.

- Um cidadão não tem que responder a um homem que apenas vive graças à clemência de outro – o cidadão fez um gesto de aceitação, procurando entre as suas roupas por algo. Retirou de lá um gasto cachecol militar, enrolado em volta de uma placa metálica. - Aqui está ele, o meu diploma.

O escravo enterrou a sua lança numa posição de repouso, examinando a legitimidade do documento. Certificado pelo Senado, garantindo ao homem e à sua família os direitos completos de um cidadão.

Um verdadeiro veterano.

Devolvendo o diploma com tanto cuidado como se este fosse feito de penas ao invés de bronze, pegou na sua arma e voltou as costas, perdido em pensamentos. Não tinha direito a censurar o velhote. Ser um bom soldado e auxiliar ganhou-lhe terras e cidadania, contudo, não vinha com o conhecimento de agricultura e talento para ser um quinteiro. Ele era, contudo, bom a lutar. Quem pode ser culpado por tentar fazer uma vida com as habilidades que tem? As suas falhas não negavam a sua humanidade; de facto, exemplificava como esta se podia exprimir. De qualquer modo, ele já não estava entre ele e a sua missão e já tinha ocorrido bem mais violência do que a situação exigia.

Tratando do seu cavalo e assegurando-se que a besta não tinha sido ferida em batalha, o escravo regressou para ao pé do sofrido veterano com uma proposta.

- Não tem que pretender que é quem não é; também não tem que comprometer o seu legado. Parta para Norte, asseguro-lhe que encontrará novo propósito.

O velhote levantou-se e cuspiu para o chão.

- Que as Manes te levem, escravo! Não me conhece. Quem é você para dizer tais coisas?

Procurando por algo nas suas alforjas, o escravo voltou com algo. Uma única moeda de prata.

- Eu sei o suficiente, descobri que é um Romano, alguém ainda mais digno do que eu para carregar esta mensagem. Estas terras e as suas gentes no passado deram tudo o que tinham ao meu mestre para apresentar uma frente unida durante as guerras contra os Gregos e Cartago. Sobrevivemos juntos e ganhámos paz. É apenas justo que eles vejam algum retorno do que foi emprestado, mostrando o quão bem tratamos os segredos que nos foram confiados.

Estas palavras atraíram a curiosidade do coração do velho, fazendo-o aceitar a moeda. Um cavalo num lado, as palavras “CELERES” gravadas do outro. O veterano fez a moeda dançar entre os dedos, como se esperasse descortinar mais sobre a sua natureza.

- Entregue isto ao primeiro magistrado ou sacerdote que encontrar – montar, calcanhares e galope. O escravo tinha dito tudo o que tinha a dizer.

- Espere! - o velhote tropeçou atrás do veloz cavalo. - O que em nome de Dis Pater é isto?

- Uma promessa – o cavaleiro gritou em resposta. - Uma que vamos ver cumprida.