Vingador do Aventino

A Colina do Aventino, a sarjeta mais nauseabunda do esgoto de Romulus. Atafulhada, suja, um pesadelo para navegar. Contudo, nenhum Romano decente mudar-se-ia para fora dos limites da muralha e comprometer os deveres e prazeres cívicos da vida urbana. Por mais confuso e perigoso que o Aventino fosse, permitia aos pobres continuar a ser verdadeiramente Romanos. A Colina era a única parcela que o Estado dispensava para habitação plebeia, atravessada por serpenteantes ruas entulhadas, repleta de casas encavalitadas umas sobre as outras, complexos labirintos de quartos minúsculos cujas paredes externas estavam permanentemente manchadas por lama e excremento.

Eu não trocaria este por qualquer outro local no mundo.

Poucas famílias do Aventino são tão antigas como a gens Considia, uma extensa árvore de longos ramos e enraizada num passado prestigioso. De posses humildes, a nossa gente sempre tentou fazer tudo o que podia para manter os patrícios fora da nossa fétida Colina, apoiando os sobre endividados ao invés de os ver vendidos como escravos, organizando clubes funerários, mantendo e consagrando pequenos santuários aos nossos deuses que não tinham ganho o favor de um augusto patrono, alguns dos mais ambiciosos Considii conseguindo juntar dinheiro suficiente para representar a Roma plebeia como Tribunos do Povo.

Não é possível confundirem-me com um dos grandes Considii. O meu nome é Marcus Considius e sou um simples barbeiro, demasiado preocupado em manter a minha loja aberta para participar no mundo das políticas ou serviço civil. O meu pai era um barbeiro, tal como o foi a sua mãe antes dele; eu aprendi o meu ofício nas ruas, defronte da mesma loja onde agora trabalho. Não houve atalhos, eu ganhei o meu lugar no interior com custosas asneiras e pura determinação. Eu não consigo imaginar outro modo de viver e estou seguro que o Aventino não consegue imaginar-se sem mim. Na Colina a violência é mais comum que grão ou azeite; escravos e libertados que têm dinheiro e senso comum em abundância evitam o local; isto faz de mim o único que sabe alguma coisa sobre medicina Oriental, a única chance que muitos têm de viver para ver o dia seguinte. Mesmo quando não há feridas para coser ou dedos partidos para ligar, existem sempre barbas para cortar e rumores para serem partilhados; visitar o barbeiro dá cor e significado à vida na Colina.

Nem todos os visitantes são bem-vindos. O duplo queixo e careca de Titus Annius atravessaram o limiar da minha porta enquanto eu discutia em quem apostar com um dos condutores dos vermelhos; uma dúzia de rufias da sua clientela seguiam atrás.

- Por favor, continuem – Annius presenteou-nos com um sorriso desdentado como resposta ao nosso súbito silêncio. - Afinal, é do meu interesse que se faça algum dinheiro nas corridas. Nada tão doce como o som de prata pagando débitos.

- Novamente assombrando a minha propriedade com miseráveis contos de usuária, Annius? Eu vou pagar os juros este mês, como sempre o fiz. E por Trivia, antes do ano terminar eu vou pagar todas as minhas dívidas. Vai-te embora, nós não precisamos da tua careta feia espantando clientes.”

O usurário respondeu com um sorriso cruel.

- Eu não estaria tão certo, Marcus Tonsore. Entre as novas legiões em Sardinia e os rumores de problemas no Norte, eu não penso que demorará muito até conflito voltar a bater à porta de Janus Pacificator. Os coletores de impostos estão já a esfregar as mãos e lambendo os lábios; é apenas uma questão de tempo até que alguém despolete um novo conflito. Eles vão descer como aves de rapina e tosquiar toda e qualquer lojinha daqui até ao Palatinato, apenas precisam de uma desculpa. Contudo, não desespere, meu bom homem. Eu tenho amigos que estão interessados na sua propriedade e na da sua mulher; se tudo falhar, eu acredito que se encontre uma alternativa forma de pagamento?

Bluff? Talvez. Contudo, não fazia parte do meu carácter conceder um ponto em público; até os humildes possuem algumas pérolas de orgulho.

- Até a próxima semana, Annius. Se quer a minha atenção enquanto tenho a loja aberta, que tal crescer algum cabelo?

- Longe de mim não contribuir para a economia do meu amado Aventino. Talvez me possa fazer a virilha da próxima vez? Vale! - despedindo-se com rudes investidas de virilha, a clientela que acompanhava o usurário suportando-o com uma torrente de insultos.

O condutor quebrou o silêncio que se instalou na loja após a sua partida.

- Isto é terrível. Eu posso falar com alguns fãs e meter algum medo naquele fellator. Um encontrão no escuro pode trazer-nos dias calmos.

- Péssima ideia, uma demonstração de força apenas vai piorar a situação; se lidas com dinheiro queres uma saudável mistura de medo e respeito e não podes ter alguém como eu a desafiar-te. Eu vou falar com o teu chefe amanhã, acredito que ainda possamos resolver isto pacificamente.

 

*

 

Dirigi-me de madrugada até a ilha do Tiberis onde Albus Pomponius Bassus construiu a sua domus. Trouxe comigo uma ânfora de vinho Siciliano que ele tanto apreciava. A porta da sua casa estava escancarada, já que o homem recebia os clientes que o visitavam. Alguns tinham vindo até das províncias, esperando numa longa fila pelas atenções de Bassus. Criadores de cavalos, condutores, uns poucos atores, algumas prostitutas e vários arruaceiros profissionais. Eu era apenas o barbeiro do Aventino, alguém que não merecia mais do que alguns acenos.

O Sol já ia alto quando Pomponius Bassus me recebeu. O seu corpo era típico de um atleta que se reformou para um estilo de vida decadente, músculos pesados inchados por gordura e pele perpetuamente rosada por prazeres e vícios; cambaleando de uma perna partida que nunca curou adequadamente, lembrete permanente de que ele nunca mais iria conduzir uma quadriga como nos bons velhos dias. Momentos gloriosos passados que celebraram a decoração da sua casa, mosaicos e joalharia gaulesa, tudo combinando para chamar atenção para o mais importante dos seus troféus: um vaso de bronze Coríntio, que ele dizia ter ganho correndo na Grécia.

- Ave, Marcus Considius! É tão bom ver-te com os meus próprios olhos! - Ele levantou-se com algum esforço, abraçando-me. - Isso que traz aí é o que penso que é? Os nossos inúteis irmãos finalmente deram notícias, tu decidindo sabiamente partilhar as boas novas com vinho? Diga-me, que razão temos para celebrar?

Questões e assunções que faziam sentido, uma vez que os nossos irmãos tinham partido juntos para a Sicilia, tentando por meses conseguir lucrativos contratos para transportar trigo e coletar impostos; nós continuávamos em Roma, esperando por notícias. Qualquer notícia.

- Infelizmente, não. Contudo, eu estou aqui com um pedido relacionado com a iniciativa conjunta das nossas famílias. Eu preciso de ver dividendos deste investimento, pois eu temo que os usurários vão fazer se eu não lhes pagar. Não posso continuar com eles à perna.

- Anima-te, Marcus! - Bassus tentou apaziguar-me, ao mesmo tempo que preocupação transpirava da sua rotunda face. - Eu consegui esgravatar alguns trocos do que o Gaius envia de volta nos nossos barcos, mas tudo é reinvestido. Vocês têm que compreender, Considius, não é o suficiente para recuperarmos das nossas perdas. Contudo, se eu comprar novos cavalos para os Vermelhos e candidatar-me a um cargo, podemos tirar lucros a longo prazo. De certeza que a palavra já chegou à tua loja?

- Claro, até os apoiantes dos Azuis do Aventino estão do teu lado – falar do tópico animou Bassus mas fez pouco para melhorar a minha atitude. Eu sabia desta ambição, sendo por isso que eu evitei abordá-lo antes, a par da futilidade de pedir dinheiro a alguém queimando e arruinando-se ao longo de uma campanha política. - Estás a candidatar-te para Tribuno no próximo ano, finalmente vamos ter alguém no cargo que realmente deseja trazer mudança à Cidade.

- Isto apenas vai trazer coisas boas a nós os dois, e não tarda nada vamos estar a cavalgar neste sucesso a recuperar das nossas perdas. Não desespere, meu bom homem. Toda a gente em Roma sabe que eu sou o teu patrono; Titus Annius e os seus lacaios não vão começar uma guerra no Aventino ou arrastar-te até ao tribunal enquanto eu estiver atrás de ti. Os apoiantes dos Vermelhos e o mais novo daquele ganso velho Sergius possuem uma ferroada venenosa. Nenhum agiota é idiótico o suficiente para fazer isso, e acima de tudo, a sua laia quer é ser paga. Eles não ganham nada em fazer-nos miseráveis.

- Eu ainda tenho que lhe pagar, senão ele vai começar a pensar que eu sou uma casa perdida e vai tentar tomar a sua propriedade. - Ripostei. - Eu vim aqui porque preciso de outro meio de pagar as minhas dívidas.; eu não posso contar que Lucius e Gaius nos paguem de volta. Eu sei que não tens dinheiro, eu compreendo que não há nada que possas fazer. Contudo, ouvi dizer que estão a pagar decentemente por uma comissão naval e barbeiros são sempre procurados no mar. Eu posso pedir-te que coloques a tua clientela a cuidar da minha loja e família? Manter o lugar seguro enquanto eu estou fora de península?

- Vais fechar o seu sítio, Considius? O Aventino e as suas gentes vão sofrer.

Bassus levantou um bom ponto. Quando eu me casei com Camilla, o seu pai deu-lhe uma parcela das suas terras na Campania como dote, um lote miserável e pantanoso. Hoje em dia era a única coisa que nos mantinha vivos e a minha mulher feliz. Ela e os meus rapazes Marcus e Lucius, a minha pequena Considia, a minha cunhada e sobrinhos, todos vivendo e trabalhando juntos. O seu trabalho árduo trouxe-nos comida suficiente para subsistir e algum lucro graças a ervas medicinais.

A necessidade mantinha-nos afastados; por mais que Camilla implorasse para eu abandonar a imundice de Roma, eu recusei aceitar as consequências da minha partida. Eu não posso ser o Considii que abandonou os plebeus e o Aventino. Relutante, Camilla aprendeu a fazer paz com o nosso sacrifício pessoal, apreciando como as nossas vidas separadas salvaguardam o futuro de tantos.

Ela iria odiar-me pelo que eu ia pedir que ela fizesse.

- Eu vou chamar Camilla e as crianças de volta a Roma. Ela é uma obstetrix experiente e pode usar a serra e medicamentos tão bem como eu. É um fato que cabelo longo vai ter que se tornar a moda, contudo, ninguém vai morrer aos pés da minha porta trancada.

- Valere, Marcus. Neptuno favorece os meus cavalos e eu vou fazer sacrifícios em teu nome, que ele te proteja nas tuas viagens. Eu juro em frente dos Lares que vou tratar Camilla como a minha filha até tornares. Vai em paz, amigo.

 

*

 

Eu não exagerei sobre o meu treino em medicina Grega, apesar desse conhecimento não ter sido ganho de um patrono erudito, patrocínio de uma collegia, nem através da generosidade de um pedagogo cativo Grego. A minha pouco ortodoxa educação começou no porto de Ostia, entre capitães e marinheiros da Sicilia ou Magna Graecia; nem as aventuras marítimas da Guerra Púnica foram o suficiente para fazer os Romanos amar o mar, forçando-os a depender de aliados e estrangeiros para tripular os seus barcos.

Ou os pobres e desesperados plebeus que não tinham outra oportunidade.

Eu nunca gostei de Ostia. Uma aura perpétua de desespero prendia-se ao lugar e aos olhares vazios daqueles que viviam lá. Cidadãos que outrora tiveram sonhos e esperanças, antes de se resignarem ao fato que sem treino ou educação, a sua única opção era tornarem-se portadores subsidiados e assalariados. O porto não melhorou nos anos em que eu estive ausente, sombras metafóricas substituídas por reais: enormes blocos de apartamentos erguiam-se, apressadamente construídos e aparentemente prontos a cair se alguém olhasse demasiado intensamente para eles. Insulae, eles chamavam a estas aberrações, estes mamarrachos, estas ilhas de mijo e miséria. Com otimismo vários declaravam este um teste bem-sucedido, uma resposta à população crescente de Roma.

Eu implorei a Jupiter e Quintius para manter esta tendência longe da Cidade. Qualquer outra coisa, outra solução, por favor.

Em uma das várias tavernas nas quais os locais afogavam a sua miséria em vinho aguado, eu encontrei velhos companheiros da minha última comissão náutica – a surpreendentemente calma e afortunada expedição illiriana que pacificou os piratas do Adriático. Algumas horas de piadas, insultos, bebidas e jubilação ganharam-me a posição de barbeiro abordo de uma embarcação que servia nada mais nada menos do que o cônsul eleito Gaius Atilius Regulus.

Dinheiro fácil, o trabalho mais seguro da frota, a oportunidade de estabelecer conexões e uma clara e definitiva data de expiração. Assim que Regulus abandonasse a cadeira curule eu poderia voltar para Roma, eu e Camilla recuperando controlo das suas vidas.

Eu devia ter percebido que era bom demais para ser verdade.

Os auspícios prediziam tempestades que depressa se fizeram sentir, prolongando a viagem entre Sicilia e Sardinia. Problemas com os barcos obrigaram-nos a ficar nas inadequadas docas Corsas durante quase um mês, após o qual tivemos um apressado e tempestuoso retorno à Sardinia. As notícias que esperavam por nós na ilha partiram-me o coração.

Os Gauleses invadiram Etruria. Os Portões de Janus tinham sido abertos. Roma novamente conhecia apenas guerra.

Eu mal conseguia dormir, as minhas preocupações partilhadas por tantos outros tripulantes; todos temiam o que podia acontecer às suas famílias e cidades. O medo ao Celta era ubiquitário, selvagens gigantes que tinham conseguido o que nenhum Grego ou Púnico conseguiu: quebrar Roma. Legiões e frota juntaram-se e avançaram para salvar Pisae, uma corajosa tentativa de travar o Terror Gaulês antes que este chegasse à Cidade.

Os deuses foram bons e após uma tensa viagem, deixámos Regulus em Pisae, partindo assim que possível numa tentativa de afugentar piratas que almejavam carregar o espólio gaulês em troca de uma parcela dos tesouros pilhados. Seguimo-los quase até à Gália Cabeluda e de volta a Regium, onde finalmente os perdemos de vista e fomos obrigados a voltar a Ostia.

Ansiedade dominava o nosso regresso, eu descobrindo que uma Colina do Aventino muito diferente esperava por mim. A azáfama constante das ruas e as estradas apinhadas tinham dado lugar a casas fechadas e barricadas improvisadas, cães esgravatando entre lama e vegetais podres mais comuns do que gente. Um tipo claramente superior de gente tinha-se mudado, escondendo a sua óbvia afluência por detrás de portas trancadas e protegidos por guarda-costas com cara de poucos amigos. Latinos e Etruscos provinciais, pela sua aparência; os locais mantinham-se escondidos nas sombras e só se atreviam a deslocar-se durante a noite.

Isto por si só era um indicador do quão a horrível ponto a que a situação tinha chegado.

O meu coração quase parou quando cheguei à minha loja. O local tinha sido completamente destruído e abandonado fazia semanas.

- Camilla…

Corri entre as tabernae abertas e pressionei os lojistas por respostas, algo, qualquer coisa. Ninguém se atrevia a fitar o meu olhar, culpa encravada nas suas gargantas, arrependimento pelo que tinham permitido acontecer pesando no seu peito.

Assim que as legiões de Papus partiram para Leste, Titus Annius entrou na Colina. Acompanhado por vários collegii criminosos e arruaceiros, tomaram controlo de propriedades abandonadas enquanto os seus donos estavam ocupados a defendê-los dos Gauleses.

As poucas gentes decentes que restaram fugiram para o campo ao invés de organizar algum tipo de resistência, dando confiança a Annius. No curso de vários dias eles aumentaram o seu aperto sobre a Colina, batendo às portas e exigindo o pagamento de todos os débitos pendentes – com juros extraordinários de sessenta per cento. Como se os coletores de impostores que tinham tosquiado toda a populaça de Roma como parte de um esforço de emergência para levantar dois exércitos consulares tivessem deixado alguém capaz de pagar sequer os juros normais. Incapazes de suportar este nível de usuária, casas e lojas foram retiradas aos seus legítimos donos; famílias inteiras sofreram escravidão.

A minha Camilla. Marcus. Lucius. Considia.

Consumido pela fúria, fui até à casa de Aulus Pomponius Bassus. Como é que o meu patrono, tendo jurado perante os deuses, deixou que a minha família fosse expulsa e escravizada? Encontrei o local fechado, os escravos cuidando deste informando-me que o seu mestre tinha sido convocado para reforçar a cavalaria de Papus. Aleijado ou não, um homem com as suas riquezas devia ao Estado um cavaleiro, e um cavaleiro o Estado recebeu. Não ficaria bem a um putativo Tribuno ignorar os seus deveres cívicos.

Eu não podia fazer nada enquanto Bassus e o exército regressassem. Eu tentei ser esperto em relação a isto, tentei ser sábio. Foi mais forte do que eu. Juntei-me a várias escaramuças com rufiões, comprando fragmentos de informação com nódoas negras. Annius não escapou ileso da primeira visita que fez à minha mulher, decidindo evitar a minha loja e não tendo coragem suficiente de a capturar. Ao invés disso, o responsável pela sua apreensão foi o excêntrico mestre do Colégio de Empreiteiros “Pleuratus of Germania”, um autodeclarado “bárbaro tornado senhor do crime”. Deixando a árdua tarefa de tomar conta do Aventino a ele, Annius escapou para a Macedónia com todo o seu dinheiro.

Evadindo a justiça e deixando-me impotente.

Álcool e sofrimento reduziram o meu cérebro a papa, erodindo o meu senso comum e validando a terrível conclusão que conduziria apenas a mais desgraças e destruição:

Annius não se podia esconder dos deuses, mesmo se evadisse magistrados e a minha vingança. Eu gravei várias placas de chumbo com maldições, adicionando as minhas lamentações e ira à de tantos outros da Colina.

- Charon, Hecate, Mares e todos os espíritos e demónios do Submundo, carregam convosco o usurário e criminosos Titus Annius. Deixem-no morrer no seu próprio excremento, coberto de pústulas e odiado por Besta e Homem. Deixem que justiça seja feita pela gente do Aventino e que cada uma das vossas maldições e imprecações encontre imediata retribuição infernal.

 

*

 

Novas sobre a vitória Romana chegaram à Cidade antes do exército, multidões juntando-se para receber as legiões triunfantes nos limites de Roma. Vitorioso o exército era, apesar de não aparentar felicidade. Uma sombra perseguia os exaustos soldados; oito legiões tinham partido para enfrentar o Gaulês e metade delas tinham sido esquartejadas. Questões e rumores desabrocharam entre os plebeus, toda a gente questionando-se sobre os feitos e fados dos comandantes. Um dos cônsules tinha-se instalado na villa de um dos seus amigos para preservar o seu imperio, enquanto que o outro entrava na cidade numa liteira funerária.

Roma tinha apenas um líder nesta altura de crise.

Enviei um mensageiro a Bassus, ao qual ele responde à noite tardia. Traficando-se ao interior da Cidade como um civil, encontrámo-nos na escuridão da sua casa, partilhando um longo silêncio interrompido apenas pelo cantar de vinho derramado sobre taças. Não era fácil falar sobre o que tinha decorrido. A nenhum dos dois.

- Eu fui mais uma vez chamado para servir Roma em batalha – era uma fraca desculpa, mas uma tentativa enquanto Bassus esvaziava um copo de vinho. - Acabei por falhar tanto à tua família como à Cidade. De que servem estas ilusões, se ao primeiro instante que gente decente parte à defesa de Roma, todos os vermes se declaram os seus mestres? Mete-me nojo.

Encontrei dificuldade em censurá-lo. Meros dias atrás eu teria-o espancado até ver sangue, contudo, tempo revelou-me a hipocrisia de o culpar a ele. Eu teria feito o mesmo se tivesse sido chamado, de fato, eu fiz o mesmo. A única diferença é que ao invés de patriotismo, eu fi-lo por causa das minhas preocupações financeiras. Eu abandonei Camilla antes que o Bassus o fizesse.

- Camilla sabe cuidar de si e as suas habilidades são demasiado valiosas para a maltratarem – admiti ou menti a mim mesmo. - Já com os meus filhos e filha é outra história. Eu tenho que encontrá-los, Bassus. Aconteça o que acontecer.

- Isto tem que ser feito como deve ser, Considius. Honestamente, defronte de Lei e Deuses. - Bassus abanou a taça na minha direção, entornando as últimas gotas de vinho sobre a minha roupa. - Os Gauleses foram derrotados e as suas gentes dispersadas, contudo, mais tem que ser feito. Esta é uma oportunidade de quebrar o seu poder de uma vez por todas, empurrá-los para fora da Gália Cisalpina e criar uma zona tampão decente de modo que nunca mais tenhamos que temer uma invasão terrestre. O Governo da Lei não vai demorar a impor-se sobre a terra e nós não podemos estar do lado errado.

Bassus estava correto ao sugerir cautela, contudo, para mim havia uma falha nos seus argumentos. Eu não me importava de tornar-me num mau Romano se tal assegurasse que eu voltava a ter a minha família de volta. Mudei de assunto, a minha única esperança de manter clareza e senso comum.

- Exactamente o que é que se passou no Norte? Nós partimos assim que as legiões desembarcaram.

- Eu digo-te, Considius, nunca vi uma batalha tão renhida! A luta chegou à terceira linha e quase quebrou quatro vezes. - Bassus estava pronto a relatar. - Regulus sacrificou-se defendendo Pisae, as suas legiões entrincheiradas numa colina que flanqueava a estrada até à cidade que os Celtas seguiam. Muitos bons romanos morreram ali, mas sangrámo-los a sério. Foi Papus que ganhou o dia, chegando no momento chave, e é com orgulho que digo que estive entre os cavaleiros que quebrou a traseira gaulesa e libertou o exército de Regulus.

- Eu percebi bem? Os bárbaros dividiram o seu exército? - Eu perguntei na minha incredulidade. - Enfrentar dois cônsules ao longo de duas frentes foi entregar-nos a vitória.

- Ganância cegou-os. Metade esperou para proteger o espólio enquanto que o resto pensou poder acabar com Regulus e as suas quatro legiões antes que Palus se juntasse ao combate. - Bassus riu-se. - Considius, não vais acreditar quem liderou a carga que cravou as forças Gaulesas no sítio e as manteve separadas. O meu advogado, Sextus Sergius. Os legionários concordam que se Regulus tivesse sobrevivido, ele ter-lhe-ia oferecido uma corona civica e até Papus presenteou-o com arreios equinos de honra; eu não importo quem seja que Annicus, Germanicus ou amigos escolham para os representar em tribunal, eles não têm a mínima hipótese contra o homem do momento.

Eu queria ter a confiança do meu patrono.

As palavras soavam-me vazias.

- O que sugere que eu faça, Bassus?

- Venha comigo, Considus – Ele ofereceu. - Se eles acharem que é demasiado velho para servir como legionário, há sempre falta de um bom capsarior.

Eu acenei a minha cabeça, rejeitando a sugestão.

- Eu não vou partir de Roma até saber o que aconteceu à minha família. Eu não posso arriscar estar ausente quanto acharmos qualquer coisa.

Bassus soube que era inútil insistir.

- Assim seja, Considius. Peço-lhe um favor: não faça nada enquanto estivermos na Gália Cisalpina. Vai haver justiça quando regressarmos.

Comprometi-me com silêncio; não fazendo nenhuma promessa que não podia cumprir.

Partindo tão furtivamente como tinha chegado, Bassus voltou a juntar-se ao resto do exército consular, deixando-me repousar entre as paredes da sua casa. Com demasiado tempo livre nas horas miúdas da noite, comecei a incomodar os escravos, obrigando-os a enviar mensagens, convocando fãs e apoiantes dos Vermelhos para encontros secretos. Habituados a ver os seus servos como as faces dos comunicados e pedidos de Bassus, eles concordaram como se o velho condutor tivesse ordenado os comandos em pessoa.

Para minha surpresa, depressa me encontrei rodeado pelo meu próprio gangue, a minha mensagem de rancor e ressentimento encontrando solo fértil entre os violentos e desesperados. Depressa eu tinha homens patrulhando o Aventino em meu nome – ou para ser mais preciso, em nome dos Vermelhos e Bassus. Comecei a passar os meus dias bebendo com visitantes e as minhas noites lendo relatórios e planeando. O meu temperamento rapidamente escureceu e eu comecei a ruminar ilegalidade. Demasiados tinham perdido as suas casas e locais de trabalho, forçados ao exílio ou escravatura. Cometer um ou dois atos criminosos em nome do bem comum começava a soar muito tentador; afinal, não era o advogado de Bassus um puto maravilha? Se o rapaz patrício era assim tão bom, ele devia ser capaz de cobrir quaisquer excessos ilegais da minha parte.

Pouco a pouco comecei a aperceber-me de um padrão nas expulsões e aparentemente erráticas atividades de Pleuratus e o seu collegia. Gentes perdiam as suas casas, lojas os clientes, rufiões fechavam ou vandalizavam aqueles que resistissem. Depois disso os trabalhadores de Germanicus deslocavam-se para preencher o vazio, demolindo as antigas residências e postos de trabalho, preservando apenas as fachadas. Um cancro crescia nas ruínas e entulho do Aventino, alimentando-se do sofrimento e exploração das suas gentes.

Quais quer que fossem os planos de Pleuratos, eles não podiam ser bons para a Colina ou Roma. Ninguém iria encontrar falta se eu os travasse.

Que se lixe a Lei.

Apoiantes dos Vermelhos começaram a causar pequenos distúrbios, atirando telhas e excrementos aos trabalhadores. O Colégio de Empreiteiros respondeu de modo previsível, enviando rufiões como guarda-costas. Incapaz de continuar a provocar os trabalhadores, a clientela de Bassus voltou a sua atenção para os vagões que carregavam materiais de construção e entulho removido. Como uma avalanche eles desceram pela Colina, a situação descarrilando em guerra aberta. Sem escrúpulos dissuadindo-me e embriagado pelo meu sucesso, decidi que era altura de desferir a Germanicus e amigos um golpe que eles não podiam ignorar, e com sorte, recuperar de.

Um nobre provincial cuja casa rural tinha sido queimada pelos Celtas estava a construir uma magnifica mansão urbana no mais inesperado dos locais – o Aventino. O Colégio tinha acabado de limpar o local e estava a preparar para iniciar os trabalhos, guardas colocados dia e noite em volta dos seus caros materiais de construção. O alvo perfeito.

Após um dia de tensas corridas no Circus Maximus, as mensagens certas trouxeram muitos apoiantes frustrados até ao local de construção, onde escravos bem posicionados foram generosos com o vinho de Bassus. Após alguns gestos de resistência, os guardas sabiam mais do que enfrentar uma multidão bêbada.

Ao raiar da madrugada o sítio estava completamente destruído.

Eu celebrei em privado, almejando a inevitável conclusão de Pleuratus que eles não podiam continuar sem paz entre nós. Ele iria sentar-se à mesa e eu poderia pedir pela devolução da minha família em troca de um fim para as hostilidades.

Eu não planeei isso muito bem.

Eu assumi que Pleuratus era como os típicos criminosos do Aventino. A sua mentalidade era algo completamente diferente.

Ele surpreendeu-nos na calada da noite, acompanhado por cerca de vinte dos seus homens. Silenciosos como gatos, extinguiram todas as luzes e capturaram os escravos. Arrancado da minha cama por quatro pares de braços, fui atirado aos seus pés.

A primeira coisa que reparei foi o quão não-germânico Germanicus era. Alto e bem constituído, pele cor de azeitona, cabelo encaracolado e olhos verdes, tinha mais em comum com Gregos do que com os gigantes do selvagem Norte. Aspeto físico aparte, ele vestia-se de modo adequado ao papel: peles de raposa, cabelo e barba sujos e longos, comportamento animalesco enquanto se movia ao longo da divisão.

O maníaco estava a atuar uma personagem.

- Vai até ao estábulo e quebra as pernas de todo e qualquer cavalo que encontres – ele rosnou. - Não toquem em mais nada. Eu não quero um grão de pó fora do lugar a não ser que eu diga o contrário.

- Esta brutalidade não é necessária! - Balbuciei, ainda atordoado do sono. - Bassus e os Vermelhos estão inocentes. Eu sou aquele responsável pelos teus problemas.

Aquele fitar. Completamente tresloucado, claro na sua mensagem:

Eu sei e não me importo nem por um segundo.

- Roma pensa que os Vermelhos são responsáveis por arruinar os meus interesses na Colina. Aceite isso, barbeiro, eu sou a única coisa a manter algum grau de ordem nesta sarjeta e só o farei enquanto Roma me temer. Vou deixar que a Cidade pense que uma equipa de quadrigas me pode desafiar? Não.

Dois dos homens trouxeram-me o vaso de bronze que Bassus tanto amava. Pleuratus sorriu de orelha a orelha.

- Isto é perfeito. - Ele agarrou uma pesada barra de ferro como se não fosse nada, desmantelando o belo Coríntio sem qualquer cerimónia; em meros momentos uma pilha de metal deformado. - Alguma vez viu algo tão maravilhoso, tonsore? Forma e arte chorando em nada. A melhor das composições musicais.

- Não há necessidade de violência entre nós! - Ofereci. - Todos têm um lugar no Aventino, se existe algo de bom na Colina é isso. Eu apenas quero a minha família de volta; é tão fácil acertar as contas entre nós.

- Caso não tenhas notado, o Aventino mudou. - Pleuratus ignorou-me, voltando as suas costas para mim e preparando-se para partir. Bassus era perigoso, uma sórdida combinação de influência, dinheiro e fãs leais. Eu era um zé ninguém. Tudo nesta situação consumia-me com fúria impronunciável. Eu tinha descido tão baixo, tudo para acabar por descobrir nada sobre Camilla e os miúdos e mal conseguindo atrair a atenção dos seus captores.

Eu era um Romano da gens Considii e aqui estava um impostor estrangeiro agindo como mestre da Colina e da nossa gente. Confiante de que tinha lido o carácter de Germanicus bastante bem, fiz algo que ele simplesmente não podia ignorar.

Aproximando-me na fonte de luz mais próxima, agarrei uma lamparina de azeite e atirei-a contra as costas de Pleuratus, queimando-o. Ele parou, apertando os seus punhos e apreciando a dor à medida que as chamas se espalhavam e morriam pelas suas peles.

Eu nem o vi mexer-se.

Quando finalmente me apercebi, a sua forma fumegante pairava sobre mim, puxando o punho do meu estômago e erguendo-o contra o meu queixo. Bêbado e inconsolável, nem sequer tentei desviar-me, aceitando toda a violência que ele dispensava. Agarrando-me pelo pescoço, Pleuratus sussurrou-me ao ouvido.

- Parece que conseguiste o teu desejo, velhote. Envia os meus cumprimentos a Sisyphus.