Quando Gaius Attilus e Titus Manlius eram Cônsules

Eu vi as luzes serem extinguidas, um a um os bastiões de liberdade desaparecendo do mundo.

Contra as sombras lançadas por déspotas e tiranos, dois faróis brilharam demasiado intensamente, arrastando-se na direção de conflito.  Empoleirados sobre barcos afundados e ossos partidos, uma águia e uma fénix aguardavam: lutando um contra outro por salvação – ou envenenada condenação.

Através de décadas de determinação e sacrifício, uma conclusão adequada foi alcançada. O homem púrpura prostrou-se perante a raça que veste a toga.

O último herói sobrevivente da guerra presenteou-nos com paz, acorrentando os portões de Janus que assinalavam ameaças contra a cidade. Tal promessa veio maculada com a falaciosa crença que tempos pacíficos não necessitam de heróis: terminando o meu autoimposto exílio, embarquei num barco destinado a Roma. Aceitando o preço que tem que ser pago pela liberdade, sacrifiquei a minha vendendo-me de volta ao Senado e Povo.

Não vou voltar a fugir. Porque eu compreendo que este é o único meio de anunciar Libertas absoluta, manter-me firme e combater.

Por Justiça.

Pela Liberdade.

Pelo Modo de Vida Romano.

É da natureza do mundo que o último herói a sobreviver uma séria crise se torne no vilão daqueles que o procedem.

A sua armadura que pairava com opressão através dos céus; a faixa vermelha que era o meu único disfarce enquanto corria por entre lojas e casas. Elmo negro, de crina, fechado; capuz humilde e pálido cabelo selvagem. Rodeado pelo nimbus azulado de um deus do trovão; braços nus e um punho enclausurado num cestus gasto. Parafernália de águias douradas contrastando com um único corvo férreo rudemente martelado

Mesmo assim, por uma extremamente familiar Roma Imperfeita e uma Roma Que Nunca Foi, ambos debatemos-mos.

Por Justiça.

Quando os nossos aliados da Sicília botaram-se ao mar e pirataria num ato de rebelde necessidade, ele assaltou-os como um metálico e vingativo Jupiter Ultor, num lampejo afundando os seus barcos e queimando as suas velas, condenando-os a serem esquecidos nas profundezas do Mar dos Etruscos. Ou tal teria ocorrido, não tivesse eu corrido através e sob as águas, arrastando marinheiros do alcance das nereidas de Salacia e entregando-os à segurança da sua ilha natal.

Pela Liberdade.

O que levou os nossos amigos, tão leais após a Guerra Púnica, a navegar contra nós? Uma questão facilmente esclarecida quando eu dediquei tempo a explorar Sicilia. Antigos mercenários vagueavam o triângulo, roubando e extorquindo, estabelecendo-se como mesquinhos tiranos em lugares onde a partida dos Púnicos e Romanos tinha criado um vazio. Finalmente, algo que era fácil de resolver com as minhas aptidões agressivas! Pulos velozes e um par de murros bem entregues recordaram aos capitães dos mercenários que Roma protegia estas gentes e as suas terras.

Talvez eu tivesse feito melhor estando atenta aos eventos em Roma; enquanto eu restaurava ordem à Sicilia, o meu heroico compatriota juntou reféns de entre várias gentes Gaulesas em termos cordiais com Roma.

Pelo Modo de Vida Romano.

À medida que as novas chegaram de uma iminente invasão da Etruria pelos Gauleses, ele massacrou os reféns entre o gado do Forum Boarium, um macabro sacrifício humano destinado a assegurar vitória contra o terror do Pesadelo Gaulês. Como se tal horror não fosse o suficiente, ele também fez um espetáculo ao desfilar em fronte das legiões enquanto os cônsules – as autoridades constitucionalmente eleitas - se preparavam para marchar norte.  Não, nenhuma liberdade pode ser ganha ou preservada por atos inspirados por medo. Tão monárquica demonstração levou-me a diminuir a minha atividade a um nível pessoal, focando-me em pequenos mas não insignificantes modos que podiam tornar Roma melhor e empurrar os Romanos na direção do sonho de Verdadeira Liberdade por qual toda a Humanidade anseia. Enquanto mantinha as ruas seguras, afastando bandidos da Via Appia ou defendendo uma criança de cães selvagens, eu mantenho-me leal às constantes três máximas.

Continuo a lutar enquanto continuar a respirar.

Não é o suficiente. Tenho que almejar mais alto.

Estes foram os costumes que guiaram os meus amigos, meus mentores, meus pais e os meus mestres. Os princípios orientadores dos meus camaradas. Eu já os tinha abandonado anteriormente num ato de tola rebelião, esperando encontrar liberdade em oposição às suas ideias algures mundo fora. Posso ter estado errada nessa altura, contudo, haviam problemas legítimos que motivaram a minha decisão, dúvidas que ainda me atormentam na minha idade adulta.

Eu preciso de combater por aquilo que é certo, do meu próprio modo.

Talvez poderia lutar como eles o fizeram. Esperançosamente estaria um dia lado a lado a outros como tínhamos feito no passado. Por Justiça. Pela Liberdade. Pelo Modo de Vida Romano. Isto é um bonito sonho, pois eu continuo lutando sozinha. Se eu vou continuar firme em nome do Povo e Amigos de Roma, tenho de o fazer confiante nos meus princípios.

Pequenas boas ações eventualmente acumulam num mundo melhor. Tornar o dia de outro mais feliz inspira-os a mover-se para frente, impulsionando-os a resistir à inércia que torna um complacente com o mal e confortável com a tirania. Deves também tirar algum prazer pessoal, manter-te a par dos teus propósitos e familiarizar-te com as gentis emoções que queres partilhar com o mundo. Eu sei o que tenho que fazer.

Trazer felicidade a mim e aos outros.

Cada golpe demasiado forte, cada consequência infeliz e cada novo inimigo ensinaram-me outra importante lição, algo simples da qual já muita gente se esqueceu.

Acima de tudo, não causar sofrimento.

Estava finalmente preparada para tomar o meu lugar como protetor da Roma Que Pode Ser ao invés da Roma Que Nunca Foi.

Alveja alto, altíssimo; não apenas alto o suficiente.

Até que a trovoada me despertou das minhas ilusões.

O céu estava limpo apesar de raio atrás de raio atingirem a Colina do Palatinato. Dobrando os cantos, saltando por cima de uma valeta aberta e mergulhando debaixo de carroças de bois, acelerei até me tornar numa mera faixa escarlate. Trepando aos telhados e quebrando telhas enquanto corria, mergulhei num átrio vazio e saí da casa pela entrada defronte do Forum. Mesmo com as minhas habilidades foi tortuoso navegar através da turba que fugia do local, enquanto mais e mais relâmpagos descarregavam contra as portas do Templo de Saturno.

Aproximando-me, foi-me possível avaliar a totalidade da situação. Os capuchos púrpura dos homens que se agachavam atrás da cobertura dos portões sagrados identificavam-nos como ativistas pro-Púnicos, as sacadas de prata que eles carregavam justificavam a sua presença dentro da Tesouraria. Havia alguém mais com eles, uma mulher de ares patrícios, pobremente detida e debatendo-se contra as suas tentativas de a capturar.

Outro relâmpago atraiu a minha atenção aos céus.

Lá estava ele, o nosso bravo herói de guerra.

A sua face oculta por um elmo ébano fundido com uma máscara prateada representando uma divindade irada com barbas e bigode encaracolados, o seu corpo protegido por uma lorica musculata queimada e gravada com dois lobos lutando à beira rio. Pode-se apenas vislumbrar a vaga silhueta dos seus membros, rodeados por eletricidade e um nimbus azulado.

Estava tão cheia de medo que o meu coração quase congelou, requerendo toda a minha determinação para resistir. Parei de correr e contemplei o ambiente, apercebendo-me que algumas das pessoas tinham parado de tentar escapar do Forum, ao invés disso mantendo-se presentes, cantando e celebrando.

- Quirinus Fulminator Niger! Ele veio salvar-nos! - Um adolescens gritou. - Queima tudo, Quirinius. Queima! Todos! Morte aos púnicos!

Terror ditou as acções dos terroristas, fazendo-os partir em debandada. Dois deles foram instantaneamente fulminados. Quirinus ergueu novamente a sua tempestuosa mão, pronto a atirar outro relâmpago.

Trazer felicidade a mim e aos outros.

Acima de tudo, não causar sofrimento.

Comecei a ver os problemas do meu novo ethos enquanto competia com um trovão, agarrando um dos terroristas e correndo para longe do Forum. Por um momento atrevi-me a suspirar de alívio, acreditanto ser demasiado veloz para Quirinius sequer me ver. Voltei-me para o inspecionar, vislumbrando a refém patrícia acenando-me para continuar a correr.

Um segundo a mais seria um segundo demasiado tarde, as pontas do meu cabelo chamuscadas por um golpe rasteiro. Ele voava atrás de mim, perseguindo-me, um esforço inevitavelmente fútil; ninguém pode igualar a minha velocidade mesmo carregando este vilão. Contudo, ele poderia derrubar edifícios e acidentalmente ferir ou até matar inocentes enquanto tentava travar a minha fuga.

Eu tinha que enfrentar um outro “herói” da “República”.

Atirando o confuso salteador de templos púrpura contra um carro do lixo, corri muralhas acima pelas lojas da vizinhança e saltei para cima de um negócio de um usurário. Quirinus já estava a preparar-se para alvejar o homem que eu tinha largado, levando-me a acelerar ainda mais, parando a meros metros dele, atirei-me o mais alto que podia, recuando o meu braço direito e concentrando toda a minha força e impulso num cestus. Finalmente notando-me, Fulminator Niger voltou a sua face mascarada contra mim, demasiado tarde para se evadir e o suficiente para alinhar-se perfeitamente com o meu punho. Foi com prazer que eu senti a prata a amolgar-se com o meu golpe, um queixo quebrando debaixo da minha infame direita.

A minha violenta felicidade foi de pouca duração. Esmurrei Quirinus para fora dos céus e para uma loja telhado adentro, contudo, a minha descida foi tudo menos graciosa; eu podia ou cair como uma pedra ou colidir contra edifícios, tentando parar a minha velocidade a custo da propriedade de outrem.

Visão aérea do fórum ofereceu-me uma perspetiva única; atraiu a minha atenção para longe dos meus sarilhos pessoais e para o dano causado pelos trovões indiscriminados de Fulminator Niger, pois azeite espalhado de algumas das lojas tinha pegado fogo e ameaçava despoletar um pequeno inferno.

Usando a minha celeridade eu guiei-me na direção dos edifícios que desmoronavam e ardiam, danificando-os ao embater contra estes. Dentro de um deles vi uma criança presa debaixo de um alguidar de pedra. Arrastei o rapaz para fora e corri em redor do fogo, expelindo o ar elemental e deixando-o faminto. Chamas sufocando, cedi à exaustão e libertei a criança. Ainda tonta e desorientada, recuperei bom senso suficiente para recordar-me que devia presentear a criança com um quente e apaziguador sorriso.

O fedelho agarrou-se às pontas do meu manto com as duas mãos e cuspiu contra o meu peito.

Certo. A realidade chamou-me.

O verdadeiro herói estava a desenterrar-se. Sem mais capuzes púrpuras à vista ou civis em perigo, eu já não podia mais com ingratidão ou a fúria vingativa de Quirinus Fulminator Niger.

Então corri.

Corri o quão rápido podia, corri ao longo da Via Appia, corri até chegar aos portões de Capua.

Acabei por colapsar debaixo de uma oliveira, permiti-me repousar. Fechei os meus olhos e sorri ao pensar no contraste entre paz bucólica e o caos urbano que tinha acabado de enfrentar. Eu estou satisfeita com isto. Eu estou bem. Segui os meus cinco princípios, tal basta, certo?

Eu estou bem.

Quando voltei a abrir os meus olhos horas mais tarde, um enorme corvo devolveu-me o olhar com brilhantes olhos rubis.

- Eu não estou a fugir – murmurei, balbuciando as minhas palavras. - Eu não vou fugir.

O corvo aproximou-se e inclinou a sua cabeça, crocitando como se duvidasse da minha sinceridade.

- A sério. Não se livram de mim tão facilmente. É quase impossível fazer isto sozinho, eu preciso de ajuda.

O pássaro saltou para o meu colo e eu acariciei as suas penas, grata. Não foi um gesto insignificante; se um Corvo do Submundo estava aqui, podia significar apenas que o Senado Sombra aprova as minhas ações e apoia a minha declamação como Herói da República. Já foi uma Corvus. Agora sou a última dos Corvii.

Talvez isto deva mudar.

Começando com Quirinus Fulminator Niger.

- Diz-me, meu amigo infernal: como se mata uma ideia?